Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Estado de Contingência

Estado de Contingência

12
Set21

O adeus a Jorge Sampaio

João Miguel Almeida

Sampaio presidente.jpg

Escrever que Jorge Sampaio foi uma perda para a democracia e a sociedade portuguesa é mais uma demonstração de que um cliché pode ser o caminho mais direto para a verdade. Na memória coletiva, a imagem de Jorge Sampaio está associada à da Presidência da República. Uma imagem simultânea de rigor e de empatia, em alternativa à de outros presidentes, mais exuberantes mas menos rigorosos, ou rígidos e distantes.

Durante a década em que foi Presidente da República (1996-2006), Jorge Sampaio alcançou um pico de consensualidade e de popularidade aquando da independência de Timor-Leste, processo no qual desempenhou um papel decisivo. E, durante a crise desencadeada pela saída de Durão Barroso de primeiro-ministro para a presidência europeia – irritou primeiro a esquerda ao dar a oportunidade a Santana Lopes de substituí-lo e depois a direita ao dissolver a assembleia da República e convocar novas eleições, abrindo caminho para a primeira e única maioria absoluta do PS. Em qualquer dos casos preferiu ser mais fiel à sua consciência do que a qualquer grupo de interesse. A última decisão ainda não lhe foi perdoada por alguns políticos e eleitorado. Mas não percebo como, em retrospetiva, alguém pode não a considerar legitimada. Foi uma decisão arriscada. Se Santana Lopes tivesse ganho as eleições o Presidente estaria em xeque.

Os lisboetas e todos os portugueses também lhe devem seis anos na presidência da câmara municipal de Lisboa (1989-1995) que representaram uma viragem na gestão camarária. Não é possível revisitar as eleições para a presidência da câmara municipal de Lisboa e avaliá-las apenas em termos de escolha de personalidades: Sampaio sucessor de Abecasis e adversário de Marcelo Rebelo de Sousa. Como presidente da câmara municipal de Lisboa, Sampaio introduziu o planeamento urbano na capital. Lançou e cumpriu o primeiro Plano Diretor Municipal. Os seus sucessores à direita podiam ter estilos e opções diferentes mas não mudaram completamente de métodos.

Como político, Jorge Sampaio inovou ao considerar como a presidência da câmara de Lisboa um cargo digno de um secretário-geral do PS, com ambições de primeiro-ministro e de Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, Santana Lopes e António Costa experimentaram o mesmo caminho. Ainda como presidente da câmara municipal de Lisboa, Jorge Sampaio conseguiu agregar apoios à esquerda, abrindo um precedente para a «geringonça», e estabelecer um diálogo e pontes com a direita que teriam continuidade com a Presidência da República.

A sua iniciação na vida política deu-se na crise académica de 1962, na qual desempenhou o papel de líder estudantil mobilizador de diferentes setores políticos. Segundo a máxima de Pierre Mendès France, «Nunca a palavra sem a ideia, nunca a acção sem a convicção», discutiu política com católicos e comunistas em O Tempo e o Modo e Seara Nova, enquanto se afirmava profissionalmente como advogado e, nessa qualidade, defendia presos políticos. Nas eleições de 1969 foi candidato pela CDE e esteve na fundação do MES (Movimento de Esquerda Socialista), procurando uma esquerda alternativa. Durante o período revolucionário desiludiu-se com o MES e foi secretário de Estado de Melo Antunes. Nas eleições presidenciais de 1976 votou em Otelo Saraiva de Carvalho. Parece absurdo que o político do cumprimento escrupuloso da lei tenha votado num símbolo do porreirismo aventureiro que pretendeu alcançar o céu revolucionário e caiu no abismo terrorista. É mais um aviso para os historiadores da dificuldade em compreender o passado, mesmo recente. Em 1978 aderiu ao PS, com muitos homens e mulheres da sua geração e com vontade de mudar o partido por dentro. Mas esteve na política para sobretudo mudar o país e foi o responsável por muitas mudanças positivas.

Os portugueses têm razões guardar de Jorge Sampaio uma boa memória.

 

 

 

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub