A desgraçada «Era Donald Trump»

A eleição de Donald Trump é uma desgraça para os Estados Unidos e para o mundo. Já muito se escreveu sobre o que Trump representa politicamente e a palavra «fascismo» foi muito utilizada. Não vou por aí. Chamemos a Trump o que chamarmos, não há dúvida que ele representa uma erosão de todas as aquisições da democracia liberal no século XX: separação de poderes; defesa das liberdades, a começar pela liberdade de expressão de que Trump abusou mas que nada indica que vá respeitar; respeito pelos direitos humanos; políticas de inclusão.
A «Era Trump» coexistirá com a «Era Putin», a «Era Xi Jinping» e outras «Eras» num mundo dividido, fragmentado, a diferentes velocidades. Era bom que o sonho europeu fosse capaz de se reinventar num momento em que o sonho norte-americano se afunda. Não será fácil e há sinais preocupantes no sentido contrário.
O impacto de uma Presidência Trump vai muito para além dos Estados Unidos. Triste sinal: pouco depois da tragédia de Valência, os eleitores norte-americanos dão o poder a um negacionista das alterações climáticas. De pouco nos vale andar a evitar usar copinhos de plástico se o poder político de um país com capacidade económica, científica e tecnológica para ter um impacto relevante no ambiente está nas mãos de Donald Trump.
Tudo indica que Trump apoiará uma paz na Ucrânia favorável à Rússia. A guerra da Ucrânia não tem solução militar e o seu fim passará necessariamente por negociações políticas e diplomáticas. Mas se essas negociações ocorrerem num contexto de grande desequilíbrio de poder, em que a Ucrânia seja obrigada a aceitar uma situação que considera injusta, a paz será uma ilusão. Na próxima oportunidade a guerra recomeçará entre os dois Estados. E essa até pode ser a hipótese menos má, pois não é de excluir que, como acontece em tantas outras situações, a um conflito entre dois Estados suceda um conflito entre organizações não estatais, geralmente chamadas de «terroristas» e um Estado, um conflito livre dos condicionamentos das «leis de guerra» que, apesar de não serem respeitadas, condicionam e limitam de algum modo o conflito entre Estados.
Biden não conseguiu evitar a extrema violação de direitos humanos por Israel na faixa de Gaza nem a escalada de conflitos entre Israel e os seus inimigos no Médio Oriente. Mas a posição pró-Israel e crítica de Netanyahu de Biden só pode ser piorada pela atitude de Trump pró-Israel e pró-Netanyahu. A política externa americana que tinha alguma simpatia pela oposição israelita a Netanyahu vai passar a apoiar as posições mais extremistas do atual governo israelita.
É tempo de olharmos para as melhores tradições europeias na construção da liberdade, da democracia, da igualdade e solidariedade, e de fazermos o que pudermos para que a União Europeia não siga o mesmo caminho desgraçado dos Estados Unidos.
