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Estado de Contingência

Estado de Contingência

31
Dez24

Ritos de Passagem

João Miguel Almeida

A 2024 este blogue chegou e deste ano não passará. A vida é composta de mudança e no próximo ano terei de repensar diversos aspetos da minha vida, incluindo a minha presença online.

Retrospetivamente, este blogue corresponde a um ciclo da minha vida e de muitas outras pessoais em sintonia com o «espírito do tempo». Que tempo foi este? O que mediou entre o fim da pandemia da covid-19 e o início da «Era Trump».

Regressei à blogosfera no contexto da covid-19 porque entendi que manter um diário público do que se estava a passar era uma forma de exorcizar e processar toda a informação relativa à pandemia. É claro que escrever só acerca da covid-19 e a forma como afetava o meu quotidiano e o das pessoas que conhecia acabou por se tornar cansativo. Por isso iniciei este «Estado de Contingência», para escrever sobre temas mais diversos, que iam da crise das democracias a livros que ia lendo e filmes que ia vendo, procurando um fio condutor na ideia de «contingência». Infelizmente, não consegui manter uma presença assídua no blogue.

Para o próximo ano tenho muitas ideias, grandes preocupações e alguma esperança. O mundo está a entrar numa época sombria. A União Europeia, apesar do desnorte político, está longe de ser o recanto mais sombrio do mundo. Portugal, apesar dos problemas sociais e das «perceções», não é o país europeu com piores cenários. Além da esperança, algum realismo e senso comum também são úteis para manter a sanidade mental num tempo marcado por populismos irracionais.

Last but not least agradeço a todos os leitores, em especial aos outros autores de blogues com quem partilhei este espaço. Foram uma boa razão para continuar a visitar esta parte da blogosfera e a escrever nela. Deixo-lhes os meus votos de continuação do que melhor teve 2024 e de um excelente recomeço em 2025.

01
Dez24

A Inteligência Artificial não é boa

João Miguel Almeida

A inteligência artificial não é boa, nem é má, é uma versão tecnológica das histórias em que aparece «o génio da lâmpada». O «génio da lâmpada» tem uma capacidade extraordinária de realizar os desejos humanos. O problema é quando os seres humanos não são conscientes dos seus próprios desejos e fazem pedidos ao «génio da lâmpada» sem perceberem as consequências, por vezes

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catastróficas.

A imagem do «génio da lâmpada» é minha, mas creio que capta bem o pensamento de Yuval Noah Harari sobre Inteligência Artificial em Nexus. História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial. O título é autoexplicativo. Harari concebe o historiador não como alguém que estuda o passado, mas como alguém que estuda a mudança. Considera portanto que o facto de ser um historiador que estudou estratégia militar na Guerra dos Cem Anos e Pintura na Idade Moderna o qualifica para compreender a mudança que está a ocorrer no nosso mundo devido à Inteligência Artificial. É uma afirmação que pode ser encarada com ceticismo, mas «Yuval Noah Harari» hoje em dia é mais do que um historiador que aplica as competências que desenvolveu a compreender as mudanças do passado a compreender as mudanças do presente. O seu nome é atualmente uma «marca», o que lhe permite trabalhar apoiado por uma excelente rede de investigadores e editores, e contactar com cientistas e engenheiros de topo, com líderes empresariais, pessoas de grande responsabilidade no mundo académico e político.

O livro é uma reflexão de alguém que está a par das agendas científicas e empresariais que estão a transformar o mundo, bem assessorado e com uma perspetiva histórica do impacto das grandes mudanças tecnológicas nas sociedades. Na linha do que defende desde Homo Sapiens, o livro que o tornou famoso, Harari defende que a grande vantagem que os seres humanos foram adquirindo sobre os outros animais e os seus antepassados, foi a capacidade crescente de trabalharem em conjunto. Essa capacidade foi primeiro potenciada por narrativas que uniram seres humanos em torno de uma crença, de uma identidade nacional ou imperial; depois pela produção de documentos escritos que deu um salto qualitativo com a invenção da imprensa; por fim com a Internet e a invenção da Inteligência Artificial.

No entanto, lembra, as redes não permitem apenas uma circulação maior e mais rápida de informação, mas também a imposição de uma ordem, que pode ser democrática ou totalitária. Sobre o conceito de «totalitarismo» os historiadores da Idade Contemporânea teriam muitas objeções a fazer, porque o totalitarismo foi sempre mais um projeto do que uma realidade. Mesmo nos regimes políticos mais opressivos, como nazismo e o estalinismo, houve sempre alguma pluralidade política e diversidade. Mas, atenção, a internet e a Inteligência Artificial têm capacidades de vigilância e controlo que esses regimes políticos estavam longe de possuir.

Segundo a «visão ingénua» da informação mais informação resulta sempre em mais verdade; a sabedoria e o poder alicerçam-se sobre essa verdade. Para a «visão populista» a «verdade» é apenas um instrumento para a conquista do poder e existe uma linha reta entre «informação» e «poder».

Os seres humanos podem recusar qualquer destas visões e colocar as redes de informação e a Inteligência Artificial ao serviço de avanços científicos e de ações de solidariedade. Mas a Inteligência Artificial seguirá apenas os propósitos que lhe forem indicados pelos seres humanos. Não terá critérios éticos, a não ser que estes lhe sejam indicados. Se o objetivo da Inteligência Artificial nas redes sociais for apenas aumentar as interações com os utilizadores e a reprodução e a recomendação de tweets ou vídeos racistas ou xenófobos aumentar as interações sociais, a Inteligência Artificial promoverá o racismo e a xenofobia, como fez no facebook no Myanmar, contribuindo para o massacre de muçulmanos por budistas.

Já sabíamos que no passado as melhorias nas redes resultaram em crimes – a imprensa de Gutenberg serviu a expansão do humanismo, mas também a caça às bruxas. Mas com a Inteligência Artificial entramos num novo patamar. Uma arma dotada de Inteligência Artificial pode disparar sobre uma pessoa que identifica como bruxa ou criminoso ou inimigo, sem apelo ou defesa possível. Sabemos que há bombas usadas em guerras que ficam enterradas e explodem décadas mais tarde, acidentalmente, fazendo vítimas. Uma arma com Inteligência Artificial que, por acidente, não for desativada, poderá atacar pessoas que identifica como inimigas anos após o fim de uma guerra. Também este exemplo não está no livro. Mas uma vez que começamos a pensar nas potencialidades negativas da Inteligência Artificial não conseguimos chegar ao fim. É preciso ler este livro para percebermos até que ponto, na realidade que já estamos a viver, há demasiados processos perigosos em curso que é muito difícil ou impossível parar.

 

16
Nov24

Noites de Peste

João Miguel Almeida

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Noites de Peste é um romance histórico de Orhan Pamuk, localizado no início do século XX numa ilha imaginária do Mediterrâneo, Mingueria. O romance foi escrito pelo prémio Nobel da literatura entre 2016 e 2021. Ou seja, começou a ser escrito antes da pandemia de covid-19 e terminou pouco depois. Não sei se o autor já tinha o título em 2016 ou o inventou durante a pandemia, para sublinhar uma ligação com a sua experiência e a dos leitores.

A peste é um tema da narrativa, embora não necessariamente o único ou o principal, pois está entrelaçado com outros temas: o desafio civilizacional para um território do Império Otomano que é combater uma pandemia de forma tão eficaz como a Europa; a capacidade das autoridades de Mingueria em manter a ordem num contexto de crise sanitária; a luta pela independência de Mingueria.

Para Orhan Pamuk a peste não é um pretexto para expor uma posição filosófica, como no famoso romance de Camus, mas para contar histórias e integra-las numa grande narrativa que é uma História ficcional de Mangheria. Uma dessas histórias é um enredo policial em torno de um assassinato. A morte resulta assim não só de acidentes que não se evitam, mas também de uma vontade de matar bem sucedida. O amor entre personagens e a Mangheria afirma-se, constrói-se e lega à posteridade o que pode, entre ameaças letais.

Pamuk mostra um gosto em inventar autores e livros, citações e geografias que lembra Borges. Mas Pamuk não nos enreda ou desafia com especulações filosóficas ou questões metafísicas como o escritor argentino. Os seus enigmas parecem bastante terra a terra, embora possam não sê-lo, pois, como nos adverte a personagem que escreve o prefácio: «uma propensão para romances policiais poderá transformar todas as páginas deste livro (…) num oceano de símbolos». Seria preciso mergulhar no texto para encontrar os símbolos, pois o que se encontra à superfície é a arte do romance, definida no mesmo prefácio como a «capacidade de contarmos as nossas próprias histórias como se pertencessem a outras pessoas e de contarmos as histórias alheias como se fossem nossas.»

 

 

07
Nov24

A desgraçada «Era Donald Trump»

João Miguel Almeida

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A eleição de Donald Trump é uma desgraça para os Estados Unidos e para o mundo. Já muito se escreveu sobre o que Trump representa politicamente e a palavra «fascismo» foi muito utilizada. Não vou por aí. Chamemos a Trump o que chamarmos, não há dúvida que ele representa uma erosão de todas as aquisições da democracia liberal no século XX: separação de poderes; defesa das liberdades, a começar pela liberdade de expressão de que Trump abusou mas que nada indica que vá respeitar; respeito pelos direitos humanos; políticas de inclusão.

A «Era Trump» coexistirá com a «Era Putin», a «Era Xi Jinping» e outras «Eras» num mundo dividido, fragmentado, a diferentes velocidades. Era bom que o sonho europeu fosse capaz de se reinventar num momento em que o sonho norte-americano se afunda. Não será fácil e há sinais preocupantes no sentido contrário.

O impacto de uma Presidência Trump vai muito para além dos Estados Unidos. Triste sinal: pouco depois da tragédia de Valência, os eleitores norte-americanos dão o poder a um negacionista das alterações climáticas. De pouco nos vale andar a evitar usar copinhos de plástico se o poder político de um país com capacidade económica, científica e tecnológica para ter um impacto relevante no ambiente está nas mãos de Donald Trump.

Tudo indica que Trump apoiará uma paz na Ucrânia favorável à Rússia. A guerra da Ucrânia não tem solução militar e o seu fim passará necessariamente por negociações políticas e diplomáticas. Mas se essas negociações ocorrerem num contexto de grande desequilíbrio de poder, em que a Ucrânia seja obrigada a aceitar uma situação que considera injusta, a paz será uma ilusão. Na próxima oportunidade a guerra recomeçará entre os dois Estados. E essa até pode ser a hipótese menos má, pois não é de excluir que, como acontece em tantas outras situações, a um conflito entre dois Estados suceda um conflito entre organizações não estatais, geralmente chamadas de «terroristas» e um Estado, um conflito livre dos condicionamentos das «leis de guerra» que, apesar de não serem respeitadas, condicionam e limitam de algum modo o conflito entre Estados.

Biden não conseguiu evitar a extrema violação de direitos humanos por Israel na faixa de Gaza nem a escalada de conflitos entre Israel e os seus inimigos no Médio Oriente. Mas a posição pró-Israel e crítica de Netanyahu de Biden só pode ser piorada pela atitude de Trump pró-Israel e pró-Netanyahu. A política externa americana que tinha alguma simpatia pela oposição israelita a Netanyahu vai passar a apoiar as posições mais extremistas do atual governo israelita.

É tempo de olharmos para as melhores tradições europeias na construção da liberdade, da democracia, da igualdade e solidariedade, e de fazermos o que pudermos para que a União Europeia não siga o mesmo caminho desgraçado dos Estados Unidos.

 

 

 

24
Out24

A Noite Mais Sangrenta

João Miguel Almeida

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O meu último livro de História, A Noite Mais Sangrenta é a abordagem mais completa até à data dos acontecimentos de violência política de 19 de outubro de 1921 que vitimaram António Granjo, o Presidente do Ministério demissionário nesse mesmo dia na sequência de um movimento revolucionário, dois heróis da revolução republicana, Machado Santos e José Carlos da Maia, e duas figuras de segundo plano político, Freitas da Silva e Botelho de Vasconcelos. Além da análise dos acontecimentos, procuro avaliar o impacto da «Noite Sangrenta» no processo de desagregação da I República República e o efeito da persistência da memória desta noite de extrema violência política na História do século XX em Portugal. Faço ainda o «ponto da situação» das interrogações que continuam sem resposta acerca da «Noite Sangrenta»: sabemos quem matou e quem foi morto. Mas alguém mandou matar? Com que intenções?

Tive muito gosto em falar sobre alguns aspetos deste livro com o Henrique Monteiro e o Lourenço Pereira Coutinho no podcast do Expresso «A História Repete-se» (ouvir aqui).

Na internet há vários podcasts e programas de rádio arquivados sobre a «Noite Sangrenta» e que podem ser ouvir em contraponto ou complemento ao podcast que eu gravei: David Pontes, reconstituiu o episódio da «Noite Sangrenta» em cinco episódios disponibilizados pelo Público (ouvir aqui). A Antena2, em «Os Dias da História» já tinha dedicado um programa de três minutos ao «essencial» sobre a «Noite Sangrenta», embora seja incorreto considerar que esta noite de extrema violência política «não teve consequências» (ouvir aqui).

Numa linha mais interpretativa sobre o significado e as consequências da «Noite Sangrenta», Rui Ramos deu uma entrevista a João Miguel Tavares (ouvir aqui) e Maria Alice Samara foi entrevistada por Fernando Rosas e Luís Farinha (ouvir aqui).

Há quem entenda que a «ditadura», a mais longa da História da Europa, começou no rescaldo da «Noite Sangrenta». Eu penso que o caminho para a ditadura começou na própria «Noite Sangrenta».

23
Out24

Pessoa - Uma Biografia de Richard Zenith

João Miguel Almeida

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A biografia é um género difícil e a «ilusão biográfica», a ilusão de continuidade de uma vida humana, já foi denunciada por um sociólogo tão importante e comentado como Pierre Bourdieu. Mas se qualquer biografia pode ser uma ilusão, a suprema ilusão não será pretender escrever uma biografia de Fernando Pessoa, o homem que dizia de si mesmo não ser mais do que um palco onde diversas personagens se iam sucedendo ou discutindo entre si?

Richard Zenith convenceu-me de que é possível escrever uma biografia, mesmo a biografia de um (?) sujeito(s) tão esquivo(s) como Pessoa. Só alguém que durante décadas trabalhou na edição dos textos do poeta seria capaz de tal empreendimento. Mas não creio que baste. É preciso também empatia, cultura geral e uma imensa paciência. Para escrever uma biografia à altura de Fernando Pessoa é preciso responder à interpelação de Ricardo Reis: «Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui». Como não exagerar uma figura tão mitificada? Como não excluir algo de uma personalidade tão dispersa e de uma obra tão fragmentária?

O trajeto do biógrafo não pode ser alheio à vida biografada e o facto de Richard Zenith ser um norte-americano naturalizado português, com uma ampla cultura anglo-saxónica, e uma longa experiência de vida em Portugal e Lisboa, mostra-se vantajoso num texto que evita as armadilhas da mitificação e da «desmistificação». Escrevendo num estilo claro, por vezes humorístico, Zenith consegue analisar todas as limitações quotidianas e biográficas, de Fernando Pessoa ao mesmo tempo que põe em evidência a sua grandeza.

A sensação de alguém como eu, que já leu bastantes textos de Pessoa, muitos deles contraditórios, a sensação a é de estar perante um gigantesco puzzle que liga muitas peças soltas da obra e da vida. E que periodiza a vida do biografado, matizando a ideia pessoana de que «não evoluo, viajo». Em alguns aspetos, Pessoa evolui mesmo, embora permaneça um viajante mental. As máscaras não se sucedem ou esgotam de um modo arbitrário. O próprio «drama em gente» é um meio de transformação, uma ferramenta que nos últimos tempos da sua vida se torna menos útil, se é que a palavra «utilidade» tem algum sentido se aplicado à obra literária de Fernando Pessoa.

O livro é também uma introdução à literatura contemporânea, em que a obra e por vezes a vida de Pessoa é comparada com a de outros autores como Keats, Melville, Kavákis, Joyce ou Kafka. Com alguma surpresa, o indisciplinador e algo marginal poeta português faz melhor figura do que outros poetas modernos, como T.S. Elliot e Ezra Pound, no que respeita a consciência política na «hora da verdade» de consolidação das ditaduras.

Pessoa é o nome de uma obra que comecei a ler no pico da adolescência, com um misto de atração e de repulsa. Após a leitura da biografia de Zenith experimentei alguma reconciliação, com o escritor e com o rosto, ou a alma, que fingiu, até ao fim, ser.

07
Ago24

Do Fundo do Coração

João Miguel Almeida

Do Fundo do Coração é um filme tecido de encontros e desencontros do amor, da banalidade quotidiana e do sonho, da música de Tom Waits e das visões de Francis Ford Coppola. Filme de ilusões e de devaneios tem o seu momento de verdade quando Hank canta desafinado para convencer aquela que é sua mulher há cinco anos – Fanny – a não o deixar.

Um filme é uma ilusão que mostra a verdade dos sentimentos – talvez este pudesse ser o mote de Do Fundo do Coração. Nota pessoal: na minha perspetiva o guião tem um «erro», pois não consigo conceber que um homem vire as costas a uma artista de circo que é Nastassja Kinski. Mas Hank é um homem com pés na terra, oferece à mulher, no aniversário do casal, uma escritura da casa, a mulher certa para ele é Fanny, por mais que esta certeza possa ser obscurecida por devaneios.

Francis Ford Coppola remontou Do Fundo do Coração cerca de quatro décadas depois de o ter realizado. E é notável que este trabalho de remontagem seja tão invisível, como se nesta história com um enredo banal nada de relevante houvesse a cortar ou a acrescentar, apenas fosse possível limar umas arestas, polir o diamante, ligar de modo mais subtil algumas sequências. Os grandes filmes, como a vida, são feitos de pequenos nadas.

20
Jul24

Estado de contingência?

João Miguel Almeida

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A bala que zumbiu na orelha de Donald Trump parece um excelente pretexto para voltar a escrever num blogue com o nome de Estado de Contingência. Nos milhares de linhas que já se escreveram sobre a tentativa de assassinato, muitos afirmaram que, por pouco, Donald Trump podia ter sido eliminado da corrida presidencial, alterando o rumo da História. Outros especulam se o Donald Trump «renascido» poderá «meter o discurso de ódio na gaveta» e, como já declarou, adotar, daqui em diante, um discurso mais unificador. Mas será que uma simples bala podia, ou pode, mudar o rumo da História?

Se Donald Trump tivesse morrido e J.D. Vance o substituísse e conseguisse ser eleito Presidente dos Estados Unidos, a sua política seria assim tão diferente da política de Donald Trump se fosse eleito? Não creio. O Donald Trump «renascido» será assim tão diferente do antigo? Parece que conseguiu ser um pouco diferente durante umas horas e meia-dúzia de discursos, mas não tardou a retomar o antigo discurso de ódio.

O caldo de violência social e política que alimentou e insuflou a figura de Trump não surgiu ontem e não desaparecerá amanhã. Foram precisas muitas gerações e ressentimentos acumulados ao longo de décadas para que Donald Trump pudesse emergir como candidato credível a Presidente da América. A bala que lhe raspou na orelha foi mais uma a juntar a muitas outras que, ao longo de dois séculos, feriram e até mataram vários políticos norte-americanos. A fotografia icónica do Donald Trump, de punho erguido e cara ensanguentada, recortado contra o céu azul, parecendo segurar a bandeira norte-americana, não teria o impacto que teve se, durante mais de um século, Hollywood e tantos canais de televisão não tivessem produzido milhões de imagens de bandeiras a esvoaçar em céus azuis, políticos fotografados ou filmados em contrapicado e heróis de cara ensanguentada e punho erguido.

O atentado a Donald Trump foi mais um de vários acontecimentos imprevistos que, desde o final do ano passado pareceram sublinhar a contingência do nosso mundo.

Há menos de um ano António Costa era primeiro-ministro de um governo com maioria absoluta. De súbito, demite-se, na sequência de uma investigação da Procuradoria Geral da República, o Presidente da República convoca novas eleições e parece que a AD se ganhar será por pouco e não resistirá à vaga crescente do Chega. Não era difícil imaginar uma viragem política distópica com o Chega no poder. Hoje esse cenário parece ridículo. A AD vai governando, o Chega está em queda, os portugueses, nas sondagens, consideram o governo «razoável» e o cenário de um governo de curtíssima duração, de uma instabilidade e crise política que pudesse ser aproveitada pela extrema-direita, vai-se desvanecendo no horizonte. Não é de um momento para o outro que desaparece uma memória de governos democráticos ao centro, ou no «centrão», de um regime democrático.

Em França, durante os dias, o cenário de distopia política pareceu bastante mais plausível: na sequência de uma «aposta política» de Macron em novas eleições legislativas, a extrema-direita francesa estaria prestes a tomar o poder. Afinal um século de memória antifascista mostrou pesar mais na decisão dos eleitores franceses do que uma jogada maquiavélica de um Presidente da República.

Estado de contingência? Fui buscar o nome deste blogue a um dos muitos «estados» decretados no contexto da covid-19. Nessa altura estava farto de escrever um diário da covid-19 e o mote da «contingência» permitia-me escrever sobre muitos outros assuntos. O mundo está a mudar e mostra constantemente «novas qualidades». Achamos que a imprevisibilidade é um sinal de que o acaso, ou a liberdade humana, desempenham um papel de relevo no curso da História. Mas pode ser uma ilusão. A História não tem leis, como a Física, que permitam prever acontecimentos. No entanto, há memórias enraizadas, hábitos, «mentalidades», condicionamentos económicos e culturais que não mudam de um momento para o outro. O papel da nossa liberdade ou do acaso joga-se numa margem mais estreita do que gostamos de pensar. E é tomando consciência destas margens que podemos alarga-las um pouco mais ou até, numa rara situação de crise, mudar alguns poderes.

 

 

 

03
Mar24

A pequena vitória de Alexei Navalny

João Miguel Almeida

A realização do funeral de Alexei Navalny na sexta-feira passada, nos arrabaldes de Moscovo, foi uma pequena vitória para os lutadores pela liberdade e pelos direitos humanos e uma pequena derrota para Putin.

Havia receios de que o funeral descambasse numa manifestação anti-Putin e isso não aconteceu. O regime conseguiu «normalizar o acontecimento», mas essa «normalização» não pôde deixar de ser uma derrota.

Porque a «normalidade» para Putin era a aprovação incontestada do seu poder e a «normalidade» de ontem foi milhares de russos participaram no funeral de um opositor a Putin, recusando o medo e arriscando-se a ser presos por levantarem a voz contra o regime. Alguns foram presos, alguns apenas por depositarem flores no túmulo de Navalny. Muitos outros correram o mesmo risco.

Porque a «normalidade» para Putin e para a Igreja Ortodoxa que o apoia é que as igrejas não prestem serviços fúnebres a opositores e abençoem a guerra da Ucrânia. E no funeral religioso de Navalny houve gritos contra a guerra.

Uma pequena vitória para a liberdade e uma pequena derrota da prepotência, um rosto para o que pode ser o heroísmo no século XXI, num tempo de políticos cínicos e de vítimas anónimas enterradas em valas comuns. Uma verdadeira vitória só poderá ser alcançada percorrendo o caminho aberto por pequenos passos como estes.

Por contraste, as vitórias e derrotas nos campos de uma guerra que se arrasta há dois anos parecem cada vez mais passos num círculo vicioso de morte e destruição.

 

18
Nov23

«O que é odioso para ti...»

João Miguel Almeida

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O ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro de 2023 não é justificável, nem justifica o ataque do governo israelita à faixa de Gaza. Algumas frases atravessam o turbilhão do «som e fúria» como se pudessem dar-lhe algum sentido: «não há inocentes neste conflito», «Israel tem direito à autodefesa e tem de destruir o Hamas».

Quem afirmou que «não há inocentes neste conflito» lembrou que o Hamas foi eleito pelos palestinianos. Mas os milhares de crianças palestinianas que já morreram neste conflito não elegeram ninguém. Se não há inocentes neste conflito o que é que são os recém-nascidos palestinianos, alguns prematuros, já mortos ou em risco de vida? É aceitável a ideia de que uma eleição estabelece uma identificação para sempre entre um povo e um partido eleito? Não, não é. Segundo uma sondagem citada por Noa Sattah, a Diretora Executiva da Associação de Direitos Civis em Israel, nas vésperas da guerra 25 por cento dos palestinianos não apoiava o Hamas (Ver aqui).

Eu não tenho de escolher entre o Hamas que praticou um massacre e o um governo israelita que, segundo fortes indícios, está a cometer crimes de guerra. Há quem lembre o Holocausto a propósito do massacre de 7 de outubro e invoque o direito à autodefesa ou retaliação de Israel. Pois então convém lembrar que Israel, após o Holocausto, procurou e prendeu nazis, como Eichmann, levando-os à justiça. Israel distinguiu entre nazis e alemães, agora uns dirigentes israelitas confundem militantes do Hamas e palestinianos (como o ministro que sugeriu lançar uma bomba atómica em Gaza) outros distinguem-nos em teoria, mas não nos bombardeamentos.

O senhor Netanyahu, que antes da guerra estava a ser muitíssimo contestado pelos cidadãos israelitas agora quer amarrar o Israel ao seu destino e remeter os seus críticos para o campo do antissemitismo. Eu encontro-me entre os que têm um grande respeito pelo legado ético e espiritual do judaísmo. Considero que alguns profetas e rabis judeus foram pioneiros da consciência ética e que essa consciência se universalizou através das outras religiões abrahâmicas – o cristianismo e o islamismo – e influenciou o humanismo secular e os códigos éticos de outras religiões. Estou a pensar, claro, na «regra de ouro» do rabi Hillel (c. 60 a.c. – 9 d.c): «O que é odioso para ti, não o faças ao teu próximo: esta é toda a Lei; o resto é mero comentário» (Shab. 31a). Ora bem. Mais palavras para quê?

 

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