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Estado de Contingência

Estado de Contingência

20
Dez22

Biografia de D. Manuel II

João Miguel Almeida

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Não me passava pela cabeça escrever a biografia de um rei, até ser desafiado pela editora Manuscrito para escrever uma sobre D. Manuel II, o último Rei português. Não dei o meu tempo por desperdiçado. D. Manuel II é um Rei bem mais interessante do que sugere a História escrita por republicanos ou por monárquicos impacientes por o Rei deposto considerar a defesa da integridade de Portugal prioritária relativamente à restauração monárquica.

O percurso biográfico do último Rei português, desde o nascimento em Lisboa, em 1889, à morte em Londres, em 1932, é um possível fio condutor para compreender a passagem da Belle Époque ao que Eric Hobsbawm designa por Era dos Extremos, da monarquia constitucional portuguesa ao Estado Novo.

Dei várias entrevistas sobre o livro. A mais completa foi a que dei, em três partes, a João Almeida, na Antena 2, no programa Quinta Essência e que pode ser ouvida aqui (do nascimento ao início do reinado), aqui (o reinado, a revolução republicana e a partida para o exílio) e aqui (exílio e morte).

 

 

04
Dez22

Crimes do futuro

João Miguel Almeida

Crimes do Futuro de David Cronenberg pode ser visto como um filme testamento do realizador. Quem não gostou de Crash ou de Dead Rings também não vai gostar de ver este filme. Quem se sentiu incomodado mas, ainda assim, achou que valeu a pena ver esses filmes, chegará à conclusão que Cronenberg volta a percorrer alguns caminhos da sua obra e sonda outras zonas obscuras, que podem ser nomeadas como Dead Zone, outro título de um filme seu.

O território que David Cronenberg tem feito seu é um misto de ficção científica, estranho e horror, em que a densidade dramática é por vezes pontuada por algum humor dito negro. Neste filme estamos no futuro, mas o futuro nada tem de «espetacular» no sentido hollywoodesco do termo. As personagens movem-se em edifícios degradados que podiam ser da década de 1970, a documentação está arquiva em filas de dossiers que pesam em estantes de madeira, resmas de papel acumulam-se no tampo das secretárias.

A sinopse pode ser esboçada em duas linhas: estamos no futuro e os corpos humanos sofrem mutações. Aos seres humanos nascem novos órgãos. Um casal formado por um homem com um corpo especialmente criativo e uma mulher colaboram numa performance que consiste em a mulher operar ao vivo o homem, extraindo-lhe os novos órgãos.

David Cronenberg e David Lynch nas últimas décadas abriram novas perspetivas ao que era filmável e apreciável pelo público numa sala de cinema. Ambos filmaram as metamorfoses do corpo. Mas o realizador canadiano sempre foi inspirado por questões. Em Crimes do Futuro há muitas questões que já estavam presentes na obra anterior que agora são levadas ao extremo: faz sentido falar em horror? O que é a arte? O que nos diz a arte sobre a condição humana?

20
Nov22

Alma Viva

João Miguel Almeida

Alma Viva.jpg

Alma Viva é um filme singular e universal, que escapa a qualquer rótulo fácil e faz jus ao título. Foi realizado por uma luso-descendente, Cristèle Alves Pereira, é passado numa aldeia de Trás-os-Montes, nos poucos dias de um fim de verão em que a vida de uma pré-adolescente em férias escolares se entrelaça com a de uma avó, de uma família dividida entre as raízes transmontanas e a emigração em França, de uma comunidade com laços de sangue, amores e ódios. É um filme fantástico que prescinde de efeitos especiais e nunca perde de vista as ligações subtis e por vezes ambivalentes entre almas e corpos, bem e mal, sagrado e profano, natural e sobrenatural.

Um filme assim faltava a um cinema português em que a alma é mais «um vício» do que a matéria de que o cinema se faz, o povo é olhado de cima e o olhar sobre populações pobres tende a ser miserabilista. Mas também faltava a um cinema fantástico à «Hollywood» assente no fogo-de-artifício dos efeitos especiais e em enredos ultra-rebuscados, faltava a um cinema europeu demasiado obcecado com a sua própria História e herança. É refrescante ver como almas vivas se podem manifestar em pessoas que dançam, cantam e choram, como o cinema pode perscrutar os fios invisíveis que ligam incêndios e chuva a paixões humanas.

24
Jul22

La Casa de Papel (Coreia)

João Miguel Almeida

La Casa de Papel (Coreia).jpgLa Casa de Papel (Coreia) primeiro estranha-se e depois entranha-se. A ideia de transplantar para a Coreia uma série nascida em Espanha parece bizarra. No início soa ainda mais absurda a ideia de dar às personagens coreanas que constituem a equipa do assalto o mesmo nome – e até o perfil psicológico – das personagens espanholas. Temos assim personagens coreanas chamadas de «Professor», «Tokyo», «Denver», «Moscovo», etc.

No entanto, à medida que a série avança vamo-nos apercebendo que não estamos apenas perante um remake. É uma outra ficção que se constrói com personagens e um plot equivalente ao originário. É como baralhar as cartas e jogar um novo jogo de cartas ou jogar outro jogo de xadrez com as mesmas peças.

Algumas personagens são caracterizadas de um modo ligeiramente diferente. Por exemplo, o «Professor» coreano é mesmo professor, de economia, numa universidade e possui um status e uma educação formal superior ao da personagem espanhola. Os diferentes contextos sociais entre as duas séries não correspondem apenas às diferenças entre Espanha e Coreia. La Casa de Papel (Coreia) é não só uma ficção alternativa, mas também uma ficção de antecipação – passa-se num futuro próximo em que as duas Coreias se uniram numa só e partilham a mesma moeda. O assalto é portanto à «casa de papel» que emite a moeda-símbolo da unidade coreana e do triunfo ideológico do Coreia do Sul capitalista sobre a Coreia do Norte comunista. No entanto, as tensões entre coreanos do norte e do sul subsistem e manifestam-se quer no grupo de assaltantes quer nas forças policiais.

Mais interessante é observar diferenças, de «tom», de «ritmo». A série de espanhola é coreografada como se fosse uma tourada ou uma montanha russa de emoções. A série coreana adota um ritmo narrativo mais fluído. Apesar de ter a sua dose de personagens loucas, a maior parte das personagens coreanas tem um registo mais introvertido, mais contido, um sentido de humor mais subtil.

Curiosamente, nalguns aspetos pode ser mais fácil a identificação dramática de portugueses com a série coreana do que com a série espanhola. São os mistérios da globalização.

 

16
Jul22

A Segunda Guerra Fria de acordo com Kissinger

João Miguel Almeida

A entrevista de Henry Kissinger ao Expresso desta semana merece ser lida, apesar da antipatia que inspira a personagem. A antipatia não resulta das suas opiniões controversas, mas do apoio que deu sinistros ditadores do Sul. Os portugueses não deviam esquecer que Kissinger apoiou Suharto e deu luz verde à invasão de Timor-Leste.

Portugal é um dos muitos países em que os comentários sobre a atual guerra da Ucrânia são ecos da Guerra Fria, dos alinhados de sempre com os Estados Unidos e de antigos alinhados com a URSS. Na entrevista, Kissinger dá uma perspetiva sobre os contornos da Segunda Guerra Fria que se está a esboçar na Guerra da Ucrânia: não uma Guerra Fria polarizada entre os Estados Unidos e a Rússia, como sucessora da URSS, mas uma Guerra Fria polarizada entre os Estados Unidos e a China, podendo a Rússia desempenhar o papel de «posto avançado da China na Europa». Esta perspectiva converge com a que tenho visto no canal de youtube brasileiro «247», que já me foi descrito como uma «Fox News esquerdista».

O «247» é bastante crítico da narrativa que em Portugal é claramente dominante sobre a Guerra da Ucrânia. Foi neste canal que ouvi pela primeira vez uma interpretação da guerra que soa bizarra na Europa: os Estados Unidos estão a fomentar a guerra na Ucrânia para derrubar a Rússia, como «primeiro passo» para «dominar a China». Esta tese não significa que os comentadores do «247» sejam necessariamente pró-Putin, mas que defendem, contra a «hegemonia norte-americana», um mundo «multipolar» que, num futuro mais ou menos próximo, poderia ser constituído por países tão diferentes como a Rússia, a China, a Índia, o Brasil, o Irão, a Nigéria e a Indonésia.

O que acho impressionante, na entrevista de Kissinger, ou nos comentários do «247» é que a Europa seja vista como pouco mais do que uma muleta dos Estados Unidos. A geopolítica devia estar ao serviço dos direitos humanos e de princípios de direito internacional que custaram muito a definir para evitar a repetição das catástrofes do século XX.

É urgente que a União Europeia encontre uma voz própria sobre a Guerra da Ucrânia, tendo em conta não só a defesa dos direitos do povo ucraniano no presente, mas elaborando um pensamento geopolítico com o propósito de evitar a agudização de uma Segunda Guerra Fria que multiplique casos como o da Ucrânia em todo o mundo, nas próximas décadas.

17
Jun22

Regresso e despedida dos Peaky Blinders

João Miguel Almeida

Peaky Blinders.pngA sexta e última temporada dos Peaky Blinders arranca o líder de uma família cigana com um pé no crime organizado, outro em negócios lícitos e ligações à política, Thomas (Tommy) Shelby, disposto a mudar de vida. Deixou de beber álcool, está mais calmo. A última temporada terminara com Tommy a mostrar intenção de suicidar-se, mas a morte não sobreveio. Continua vivo e viver é mudar. Mas nem todas as mudanças resultam da vontade ou da realização de desejos. Há mudanças que são golpes trágicos.

Thomas Shelby é um self-made man e um homem de família, de clã, de uma organização de luzes e sombras, com áreas legais e criminosas. É irmão de uma socialista convicta e amante da noiva do líder fascista britânico. Corresponde-se com gangsters e Churchill.

A morte, o luto, paira sobre a sexta temporada dos Peaky Blinders. A ficção trabalha emoções reais, pois a passagem da quinta para a sexta temporada foi assinalada pela morte de Helen MacCrory, na série irmão de Thomas Shelby. Os episódios são atravessados pela ideia de destino, de morte iminente, e no entanto o que a personagem principal personifica é a ideia de que cada homem é senhor do seu destino, uns mais do que outros, uns com mais impacto na sociedade em que vivem, nos múltiplos grupos a que pertencem, o grupo duro da família e todos os outros.

O que torna a série imperdível não é apenas o seu brilhante enredo, é a grandiosa banda sonora, nesta temporada menos centrada nas músicas de Nick Cave. É o elenco, enriquecido por Anya Taylor-Joy, que depois de protagonizar um génio do xadrez em Gambito de Dama, encarna a personagem de vilã numa série de fronteiras movediças entre heróis e vilões. São os tons sombrios dos cenários urbanos e da fotografia, em contraste com alguns cenários em campos verdes e largos horizontes, os mais adequados a uma personagem com a memória do nomadismo cigano e triunfante no conturbado mundo do capitalismo liberal entre as duas grandes guerras.

 

08
Jun22

Love Death + Robots

João Miguel Almeida

Love-Death-and-Robots-Volume-3-Episodio-3-O-propriA terceira temporada de Love Death + Robots  na netflix contém mais nove curtas/médias metragens que glosam o mote autoexplicativo. Algumas não têm sombra de amor e contêm excesso de violência, outras são humorísticas e ternurentas, como «As ratazanas de Mason». A condensação temporal que implica contar uma história entre 7 e 21 minutos favorece a conceção do filme como poética.

As técnicas usadas são muito variadas: há personagens interpretadas por desenhos animados e por atores de carne e osso; há narrativas oníricas, explorando as fronteiras entre o humano e o artificial, a vigília e o delírio, como «O próprio pulsar da máquina» e histórias de ação pura e dura; há filmes com diálogos elaborados e o estranho filme em que não é pronunciada uma única palavra, «Jibaro», que a sinopse descreve como uma «dança mortífera» entre um cavaleiro surdo e uma sereia mitológica.

É no entanto possível encontrar um fio condutor entre episódios tão diferentes, uma interrogação sobre os horizontes da condição humana e sobre o que poderá ser o pós-humano ou sobre se o que é atualmente humano não estará mais próximo do «pós-animal» do que da desumanidade robótica do futuro.

Um exemplo de como no streaming as séries mais comerciais podem coexistir com outras quase experimentais; o cinema de centro comercial e televisão generalista com o cinema de festivais e as séries de canais especializados de cabo.

Love-Death-and-Robots-Volume-3-Episodio-3-O-propri

27
Mai22

As cruzadas da Guerra da Ucrânia

João Miguel Almeida

Condeno a invasão da Ucrânia, apoio a defesa da sua soberania, a proteção das populações no território ucraniano e o acolhimento dos refugiados. Todas estas posições parecem muito consensuais, embora, infelizmente, não o sejam.

O que não é consensual é sublinhar, como eu sublinho, que as ameaças às posições acima expostas provêm tanto da Rússia como dos Estados Unidos da América do Norte e de alguns europeus. De um lado e doutro da antiga linha divisória traçada pela Guerra Fria, há quem veja na guerra da Ucrânia uma moderna cruzada.

Para os cruzados de inspiração norte-americana, a guerra da Ucrânia não deve servir apenas para defender a soberania de um país e a segurança da sua população, mas para derrubar Putin e «democratizar» a Rússia. Putin é apresentado à opinião pública como uma espécie de «Saddam Hussein» russo que é preciso derrubar para abrir caminho à democratização da Rússia. A fórmula já foi aplicada no Iraque com os resultados que estão à vista. Há no entanto, uma diferença que não é irrelevante entre a Rússia e o Iraque: o primeiro país tem armas nucleares e uma guerra civil russa pode ter efeitos devastadores. Mas serão os «cruzados» norte-americanos a influenciar de facto esta guerra? Ou será esta «cruzada» apenas uma retórica manipuladora destinada a dividir a União Europeia para subalterniza-la face ao poder norte-americano? Esta última tese é defendida pelo general Carlos Branco (como se pode ler aqui).

Para os cruzados russos, a guerra da Ucrânia não serve apenas para defender as minorias russófonas ameaçadas ou fazer uma espécie de «guerra preventiva» contra o que é percecionado como uma ameaça da NATO às fronteiras russas. Há cruzados russos que querem acabar com a Ucrânia e «russificar» os ucranianos. O próprio Putin fala na «desnazificação» da Ucrânia, pretendendo ter autoridade total para definir o que é um «nazi» ucraniano e decidir qual o melhor método para «desnazificá-lo».

Considero que Putin é uma figura da extrema-direita política, mas esta classificação assim não equivale a passar-lhe um atestado de «cegueira ideológica». Putin pode ser apoiado por ideólogos tresloucados e ele próprio pode ser um nacionalista autoritário, ou pós-fascista, e ter um pensamento estratégico que admite negociar com inimigos ou aliados de ocasião, avanços e recuos. Estaline era um ditador brutal, mas isso não o impediu de se aliar a Churchill e Roosevelt para derrotar Hitler. A visão dicotómica da presença dos russos na Ucrânia como «invasão» ou «intervenção militar» implica uma rigidez de pensamento que ainda não foi provado ser a de Putin. Os russos invadiram a Ucrânia e cercaram Kiev. Mas porque não tomaram Kiev? Plausivelmente porque, até ao último momento, quiseram deixar em aberto a possibilidade de tomar Kiev e assumir a «invasão» ou focar-se no Donbass e legitimar a sua ação como «intervenção militar».

A paz e a segurança no mundo só serão possíveis se a negociação política pelo fim da guerra renunciar às cruzadas ideológicas e adotar uma abordagem pragmática, em torno de objetivos realistas, em que ambas as partes em confronto admitem cedências, assumindo a União Europeia um papel ativo nas negociações. E a paz é urgente porque só a paz permitirá retomar a produção cerealífera na Ucrânia evitando a morte por fome de muitas pessoas dos países mais pobres.

Porque foi aqui que chegámos em 2022: depois da peste, a guerra e a fome. E é daqui, contra estas três ameaças, que temos de agir.

07
Fev22

1984, a Novela Gráfica

João Miguel Almeida

O último romance de George Orwell, 1984, tem marcado sucessivas gerações de adolescentes. No meu caso, foi o tema da minha primeira recensão publicada, ao 15 anos, num jornal escolar. E foi um romance que me abriu portas para pensar a política, quer a dos grandes e visíveis poderes, quer a dos pequenos e invisíveis poderes, para ver na História e na ficção científica ferramentas úteis na compreensão do presente e imaginação do futuro.

1984.jpg

No caso de Fido Nesti, nascido em São Paulo, em 1971, a leitura do romance de Orwell, em 1984, nas suas palavras «deixou-o profundamente impressionado com a forma como o mundo distópico criado por Orwell se tem revelado cada vez mais verdadeiro». O seu meio de trabalhar essas impressões foi a ilustração e a banda-desenhada, tendo publicado trabalhos na Folha de São Paulo, na New Yorker e em diversas editoras.

A Alfaguara editou em Portugal a adaptação de Fido Nesti do famoso romance distópico – 1984, a Novela Gráfica. Uma obra deste género depara-se à partida com desafios difíceis de superar: como ser simultaneamente fiel a um texto que se tornou canónico e dar forma a uma leitura muito pessoal de um romance de culto?; como escrever uma obra que dê simultaneamente o tom do tempo em que foi escrita e mostre toda a sua atualidade?

Lendo 1984, a Novela Gráfica, somos confrontados com as imagens pessoais, porque desenhadas, de outra leitura de um romance marcante. São os fragmentos interligados do «filme» que passou na cabeça de outra pessoa quando lia um texto partilhado e do trabalho posterior da memória e da imaginação sobre essa primeira leitura.

O resultado é bastante estimulante. A novela gráfica combina muitas transcrições do texto do romance com as imagens sombrias de um tempo que para o autor era um futuro possível e para nós é uma espécie de passado alternativo que no entanto pode explicar melhor o nosso futuro do que as ilusões do nosso presente. Na maior parte da novela, o texto está ao serviço de imagens que são simultaneamente realistas, ancoradas na nossa memória visual do Reino Unido no segundo pós-guerra, e oníricas, como se habitassem os pesadelos dos homens desse tempo acerca do futuro. Mas há 13 páginas inseridas na novela gráfica em que a relação entre texto e imagens se inverte e o texto de George Orwell sobre «guerra e paz» é ilustrado por imagens sugestivas e assertivas. E mais oito páginas de apêndice sobre os «princípios da novilíngua» e também sobre os seus objetivos, cada vez mais atuais: «em Novilíngua era praticamente impossível expressar, a não ser de modo muito incipiente, quaisquer opiniões que divergissem da ortodoxia.»

Os cinzentos predominantes da novela gráfica são interrompidos por vermelhos agressivos ou, em poucas páginas, pelas cores suaves ilustrando o encontro amoroso entre Julia e Winston Smith.

Escrito no contexto da guerra fria, 1984 é uma narrativa acerca de uma guerra que não acabará sem fim à vista, a guerra de todos os poderes despóticos pelas mentes e pelos corações de todos os homens e mulheres.

08
Dez21

La Casa de Papel

João Miguel Almeida

La Casa de Papel.jpg

Não era fácil a última parte da última temporada de La Casa de Papel estar à altura das expectativas, mas a série conseguiu voar alto antes de desaparecer no horizonte, em direção a Portugal. Sentíamos que o tempo da série se estava a esgotar, mas os últimos cinco episódios conseguem dar grandes reviravoltas e piruetas no enredo, levar as personagens ao seu limite, provocar o riso, o suspense, o pathos, uma grande paleta de emoções e reações.

A série começou obscuramente num canal de televisão espanhol e tornou-se uma das séries mais emblemáticas da netflix. É uma versão em streaming, no século XXI, das grandes ficções de aventuras do século XIX. Dumas e Stevenson encontram-se com D. Quixote, na terra natal deste, os filmes de ação norte-americanos são misturados com o romantismo europeu. A tradição de aventuras está sempre a ser renovada e nesta série as mulheres juntam-se aos homens, os pais aos filhos e filhas, as polícias passam a ladras, as mulheres grávidas ameaçam e ajudam homens em apuros, as peças das nacionalidades europeias juntam-se num puzzle feito pela amizade.

La Casa de Papel é entretenimento, sem se deixar seduzir pelo escapismo, tocando em muitas feridas do mundo atual: as disfunções do sistema financeiro, a violência policial, a barbaridade da guerra. O que propõe não é um programa político ou uma apologia do crime como solução para problemas sociais, mas um modo de ver e de estar no mundo unindo a vontade de aventura à lucidez analítica, evocando o valor da lealdade e o poder do amor, os laços das famílias de sangue e afetivas.

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