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Estado de Contingência

Estado de Contingência

03
Out21

Katla

João Miguel Almeida

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Katla é uma série islandesa de ficção científica na netflix que primeiro se estranha e depois vai ficando cada vez mais estranha e violenta. O título vem de um vulcão na Islândia, que irrompe numa paisagem bela e inóspita. É também uma metáfora da paisagem dramática: sob uma superfície calma, de nórdicos com gestos sóbrios e vozes baixas e pausadas, há uma lava ardente de paixões, de lutos e amores mal resolvidos, prestes a explodir a qualquer momento.

Evitando ser um spoiler, o que posso afirmar sobre o enredo de ficção científica é que encontro nele uma relação remota com algumas ideias de Solaris de Stanislaw Lem. Também aqui há uma possível relação com uma inteligência extraterrestre capaz de sondar a alma humana (talvez não seja redundância, talvez haja almas não humanas) e materializar os fantasmas produzidos pelos desejos e mágoas de homens e mulheres. Uma diferença importante é que no romance do escritor polaco, adaptado por Tarkowski e Steven Soderbergh todo o enredo bizarro é contextualizado num planeta remoto. Em Katla o eventual contacto extraterrestre irrompe na vida quotidiana, tecida de hábitos, tédios, ilusões.

Escrevo possível, eventual porque, em rigor, não há propriamente uma «explicação natural» para os fenómenos misteriosos, impossíveis de acordo com a natureza conhecida pela ciência humana. É também insinuada uma explicação fantástica – a ação de Deus e do demónio. Embora a segunda explicação seja mais frágil, ela não pode ser completamente descartada. A tensão entre a explicação científica e a da fé coloca a ficção num terreno movediço, fantástico e fantasmático e, simultaneamente, realista e dramático.

Pode uma série evocar simultaneamente os filmes de John Carpenter e de Hitchcock, de Bergman e de Tarkovski, como se não pudessem ser arrumados em prateleiras diferentes? Pode – é Katla. Com suspense, cenas sinistras, angústia existencial e densidade dramática. Sem as digressões filosófico-teológicas de Bergman e Tarkovski, por vezes com um certo laconismo dramático e uma cartografia psicológica repleta de abismos, lagos gelados e vulcões.

12
Set21

O adeus a Jorge Sampaio

João Miguel Almeida

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Escrever que Jorge Sampaio foi uma perda para a democracia e a sociedade portuguesa é mais uma demonstração de que um cliché pode ser o caminho mais direto para a verdade. Na memória coletiva, a imagem de Jorge Sampaio está associada à da Presidência da República. Uma imagem simultânea de rigor e de empatia, em alternativa à de outros presidentes, mais exuberantes mas menos rigorosos, ou rígidos e distantes.

Durante a década em que foi Presidente da República (1996-2006), Jorge Sampaio alcançou um pico de consensualidade e de popularidade aquando da independência de Timor-Leste, processo no qual desempenhou um papel decisivo. E, durante a crise desencadeada pela saída de Durão Barroso de primeiro-ministro para a presidência europeia – irritou primeiro a esquerda ao dar a oportunidade a Santana Lopes de substituí-lo e depois a direita ao dissolver a assembleia da República e convocar novas eleições, abrindo caminho para a primeira e única maioria absoluta do PS. Em qualquer dos casos preferiu ser mais fiel à sua consciência do que a qualquer grupo de interesse. A última decisão ainda não lhe foi perdoada por alguns políticos e eleitorado. Mas não percebo como, em retrospetiva, alguém pode não a considerar legitimada. Foi uma decisão arriscada. Se Santana Lopes tivesse ganho as eleições o Presidente estaria em xeque.

Os lisboetas e todos os portugueses também lhe devem seis anos na presidência da câmara municipal de Lisboa (1989-1995) que representaram uma viragem na gestão camarária. Não é possível revisitar as eleições para a presidência da câmara municipal de Lisboa e avaliá-las apenas em termos de escolha de personalidades: Sampaio sucessor de Abecasis e adversário de Marcelo Rebelo de Sousa. Como presidente da câmara municipal de Lisboa, Sampaio introduziu o planeamento urbano na capital. Lançou e cumpriu o primeiro Plano Diretor Municipal. Os seus sucessores à direita podiam ter estilos e opções diferentes mas não mudaram completamente de métodos.

Como político, Jorge Sampaio inovou ao considerar como a presidência da câmara de Lisboa um cargo digno de um secretário-geral do PS, com ambições de primeiro-ministro e de Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, Santana Lopes e António Costa experimentaram o mesmo caminho. Ainda como presidente da câmara municipal de Lisboa, Jorge Sampaio conseguiu agregar apoios à esquerda, abrindo um precedente para a «geringonça», e estabelecer um diálogo e pontes com a direita que teriam continuidade com a Presidência da República.

A sua iniciação na vida política deu-se na crise académica de 1962, na qual desempenhou o papel de líder estudantil mobilizador de diferentes setores políticos. Segundo a máxima de Pierre Mendès France, «Nunca a palavra sem a ideia, nunca a acção sem a convicção», discutiu política com católicos e comunistas em O Tempo e o Modo e Seara Nova, enquanto se afirmava profissionalmente como advogado e, nessa qualidade, defendia presos políticos. Nas eleições de 1969 foi candidato pela CDE e esteve na fundação do MES (Movimento de Esquerda Socialista), procurando uma esquerda alternativa. Durante o período revolucionário desiludiu-se com o MES e foi secretário de Estado de Melo Antunes. Nas eleições presidenciais de 1976 votou em Otelo Saraiva de Carvalho. Parece absurdo que o político do cumprimento escrupuloso da lei tenha votado num símbolo do porreirismo aventureiro que pretendeu alcançar o céu revolucionário e caiu no abismo terrorista. É mais um aviso para os historiadores da dificuldade em compreender o passado, mesmo recente. Em 1978 aderiu ao PS, com muitos homens e mulheres da sua geração e com vontade de mudar o partido por dentro. Mas esteve na política para sobretudo mudar o país e foi o responsável por muitas mudanças positivas.

Os portugueses têm razões guardar de Jorge Sampaio uma boa memória.

 

 

 

10
Set21

A última temporada de La Casa de Papel

João Miguel Almeida

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A primeira parte da última temporada de La Casa de Papel mantém-se fiel ao carrossel de emoções, reviravoltas de enredo e densidade de personagens que são a imagem de marca da série.

Não é possível dissociar o modo como vemos uma série das circunstâncias em que a vemos. Apesar de já ter ouvido falar de La Casa de Papel só comecei a vê-la em plena pandemia, quando aderi à netflix. Num canto obscuro da minha mente alguma conexão se estabeleceu entre a sensação de claustrofobia causada pelo confinamento e a condensação dramática do enredo centrado em algumas personagens fechadas com reféns na Casa da Moeda. Vi as quatro temporadas mais ou menos de enfiada, embarcando na vertigem de ação, ligações perigosas e paixões. Quanto a esta temporada, vi-a após uma pausa forçada e é um pouco estranho reencontrar as personagens exatamente em que se encontravam há largos meses.

E no entanto, se os cenários não mudam, o tempo corre, implacável, deixando marcas diferentes em cada personagens: há vilões ainda mais vilões, personagens que mudam de lado da barricada e sacrifícios pelos companheiros. Não creio que seja um grande spoiler se revelar que o vilão Arturo Román se encontra na primeira categoria.

A integração de referências a Portugal está bem conseguida. Não se limita a uns bilhetes postais relativos às memórias amorosas de uma personagem. Há uma utilização dramática de um fado e do Grândola Vila Morena mostrando que a capacidade dessas músicas de traduzir estados de alma, além do contexto cultural e histórico em que foram produzidas.

Chega-se ao fim com vontade de ver como tudo acaba.

 

 

 

27
Ago21

Uma visita à Casa de Bragança

João Miguel Almeida

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Este verão fiz visita guiada ao paço ducal de Vila Viçosa, que está aberto ao público como museu da Casa de Bragança.

A visita guiada, de cerca de uma hora, começa na escadaria que dá acesso ao primeiro andar e termina na impressionante cozinha. O público fica com uma visão geral do que era a vida quotidiana dos Braganças, em especial dos dois últimos reis.

Suponho que seja o local com uma exposição mais completa da obra pictórica de D. Carlos, uma obra interessante. A relação dos Braganças com a arte e a cultura é claramente privilegiada quer no discurso da guia, quer nas peças expostas. Além da última família da dinastia dos Braganças, são especialmente evocados o papel de D. Catarina de Bragança na corte inglesa e do rei D. Fernando II, consorte de D. Maria II, em Sintra.

Senti falta de informação sobre o que dá sentido a uma dinastia: a vida política, social, económica do país que representa e, com mais ou menos poder, governa. A lacuna é compreensível, tendo em conta que a visita guiada dura apenas uma hora e a casa de Bragança é uma fundação privada com a difícil tarefa de gerir a memória da última dinastia da monarquia portuguesa, sobre a qual o republicanismo, triunfante em 1910, elaborou e difundiu uma memória crítica, legitimadora da revolução republicana.

No entanto, penso que seria possível, no final da visita guiada, pôr o público em contacto com uma exposição, na qual pudesse gastar mais tempo ou ver apenas de relance, que desse o enquadramento histórico das peças observadas ao longo da exposição, relacionando a vida privada da dinastia com a sua vida pública, ou seja, o exercício do poder político, social, económico e diplomático. O castelo de Évora Monte poderia servir um pouco de exemplo, pois tem uma pequena exposição que nos dá informações sobre o castelo, do ponto de vista arquitetónico, e a vida social dos seus proprietários.

De qualquer modo, o paço ducal de Vila Viçosa permite um belo programa numa tarde de verão.

25
Ago21

Amadeo - A vida e a obra entre Amarante e Paris

João Miguel Almeida

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Amadeo – A vida e a obra entre Amarante e Paris é uma novela gráfica escrita por Jorge Pinto, desenhada por Eduardo Viana e editada em boa hora pela Desassossego. A capa inspirada dá-nos o essencial deste álbum sobre o artista plástico português: no centro da página, Amadeo ergue o pincel como uma arma e traça um risco vermelho traçando uma divisão entre a colorida Amarante a uma Paris a preto e branco. A novela gráfica coloca Amadeo entre estes dois pólos: a sua terra natal cheia de luz e de cores, mas associada a um isolamento mental que só é produtivo se for temporário, e uma Paris cinzenta que no entanto fervilha de criatividade.

A história é contada de um modo não linear, num vaivém na memória de Amadeo, percorrendo o labirinto da sua vida e obra, no momento em que está prestes a morrer. Na maior parte das páginas os desenhos são sóbrios, muitos deles usando cores escuras para desenhar as personagens em espaços interiores e organizam a narrativa seguindo o método clássico em banda desenhada dos quadradinhos. O método da narrativa aos quadradinhos é aqui e ali interrompida por páginas organizadas por uma lógica não narrativa, mostrando-nos o mundo pictório de Amadeo numa explosão de cores. De certo modo é o correspondente, numa novela gráfica, à atitude de Amadeo de não seguir uma só escola, um só estilo, e de usar diferentes técnicas num mesmo quadro.

Ao contrário de outras personagens do grupo de Orpheu, como Guilherme de Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro ou Fernando Pessoa, que tiveram vidas «artísticas» mais ou menos excêntricas, Amadeo produziu uma obra genial num percurso biográfico relativamente «normal», caracterizado por uma vida familiar sem grandes dramas, uma relação amorosa estável, longas estadas na província e rotinas de trabalho. Esta relação entre uma vida próxima do comum e uma obra excecional é um desafio e um fascínio numa obra que procura as ligações entre o seu trajeto pessoal, o seu ambiente, os seus hábitos, e a sua obra.

Em Portugal escasseiam as bandas desenhadas, ou novelas gráficas, sobre temas sérios – sobre temas humorísticos há uma tradição mais forte. Lembro-me de ter lido em miúdo umas bandas desenhadas sobre o Viriato e os inícios da nacionalidade portuguesa, escritas num tom mais ou menos heróico e com uma caracterização psicológica das personagens brutalmente simples se comparada com as personagens dos mangá que os miúdos atualmente leem. É portanto de saudar a publicação de uma novela gráfica sobre um tema que é mais do que histórico, pois a arte viva atravessa os tempos.

 

 

09
Ago21

Atletas olímpicos de carne, osso e alma

João Miguel Almeida

O saldo da participação portuguesa nos jogos olímpicos de 2020 foi quatro medalhas e ainda mais personagens densas, com histórias exemplares e singulares.

Pedro Pichardo, a quinta medalha de ouro olímpica portuguesa, nasceu em Cuba, com uma ascendência africana. Escolheu o nosso país, tem uma postura contida e focada, veste totalmente a camisola portuguesa. No entanto, há pessoas para quem a sua vitória teve um sabor agridoce. A esquerda que gosta de Cuba e de narrativas acerca da emancipação de africanos, gosta dele por ser de proveniência africana, mas não por ter mandado às favas um país oficialmente comunista. A direita que não gosta de Cuba gosta de Pichardo por ter decidido sair de lá, mas não lhe agrada ter de admitir que nem todos os imigrantes africanos, com histórias problemáticas com os seus países de origem, vivem de subsídios. E alguns até trazem glória ao seu país de adoção.

Patrícia Mbengani Bravo Mamona ganhou uma medalha de prata e uma merecida atenção mediática. Não é apenas uma campeã – é também uma mulher bonita, que salta maquilhada, segura de si e com um discurso elaborado. Características que nem sempre coincidem numa atleta de alta competição. É ainda uma portuguesa negra, com ascendência angolana, nascida em São João de Arroios, Lisboa. Representou da melhor forma possível os portugueses de todas as cores.

Jorge Fonseca ganhou a medalha de bronze em judo. Como pertenço à minoria de portugueses mais interessado em artes marciais japonesas do que em futebol, fiquei bastante contente com esta medalha. Mais, pelos vistos, do que Jorge Fonseca. Queria a medalha de ouro e, apesar de ser um campeão, não alcançou o seu sonho profissional: ser polícia. Não está certo. A academia de polícia devia arranjar maneira de o integrar de algum modo nas forças policiais, por exemplo, como instrutor de judo de pessoas em formação para serem polícias.

Fernando Pimenta foi de todos os campeões portugueses o que se mostrou uma personalidade com menos contornos dramáticos. Além do óbvio mérito desportivo, deve ter valorizado por ter triunfado numa modalidade desportiva com pouca tradição de medalhas em Portugal – a canoagem.

Nelson Évora, a quarta medalha de ouro olímpica portuguesa, com uma figura apolínea e simpática, despediu-se dos jogos olímpicos sem ganhar nada e mostrando um lado sombrio da sua persona: a rivalidade com Pedro Pichardo.

Gosto da ideia de em Portugal o desporto ser cada vez menos sinónimo de futebol. E gosto de ver atletas a afirmar a supremacia da mente perante o corpo e a mostrarem-se pessoas para quem o desporto é um meio de expandir uma personalidade feita de carne, osso, alma, chama e sombra.

 

06
Mar21

Giri/Haji

João Miguel Almeida

Giri/Haji é uma série de oito episódios, divulgada pela Netflix. É de uma beleza estranha. Depois de estranhar, entranhei. As duas palavras japonesas que formam o título correspondem ao binómio dever/vergonha.

O ponto de partida: um polícia japonês descobre que o irmão mais novo, um gangster ou, em japonês, yakuza, dado como falecido há um ano, está vivo em Londres. O polícia vai à capital do Reino Unido com o propósito, não assumido junto da polícia britânica, de trazer de volta para o país de proveniência o irmão, suspeito de um homicídio que provocou uma guerra entre yakuza rivais.

Apesar da personagem principal ser um polícia e de a narrativa arrancar com um crime, é demasiado simplista classificar a série como um policial. É também um thriller – a ação não se volta só para resolver um crime passado, está focada nos perigos do presente e nas ameaças do futuro, um filme de yakuza, um filme que deve bastante ao filão cinematográfico japonês em torno da vida familiar, de que Ozu foi um expoente.

O realismo contemplativo japonês funde-se com o realismo britânico e deixa-se contaminar pela projeção de fantasmas saídos da vida interior das personagens ou por sequências oníricas.

As ações passadas em Londres entrelaçam-se com as passadas no Japão, por vezes em montagem alternada, mostrando como os mais pequenos gestos, os mais subtis movimentos de emoção ou pensamento nos extremos opostos do mundo podem estar ligados, condicionar-se. Há cenas de sexo e violência, mas os picos emocionais podem surgir de um silêncio, de um olhar contemplativo.

As personagens agem num mundo que saiu dos sistemas éticos do budismo ou de um judaísmo próximo do cristianismo, mas os valores e os sentimentos inculcados por esses sistemas – o perdão, os deveres para com o próximo, a honra e a vergonha, continuam a ser as âncoras que impedem as personagens de se afogar num caos interior e social. Um mundo sem fé onde o amor, a caridade e a esperança transportam luz para noites escuras.

 

 

 

19
Fev21

Luís Salgado de Matos (1946-2021)

João Miguel Almeida

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Esta semana soube que tinha perdido uma das pessoas mais brilhantes, heterodoxas e livres que conheci, Luís Salgado de Matos (1946-2021). José Pedro Castanheira escreveu um obituário bastante completo que se pode ler aqui, mas só se for assinante do Expresso. O Centro Nacional de Cultura dedicou-lhe uma nota biográfica acessível a todos, que pode ler aqui. Outros obituários podem ser lidos aqui, aqui, e aqui 

Como muitos homens da sua geração foi um apaixonado pela política e teve algumas incursões políticas. Mas foi sempre mais um homem das ciências sociais, da filosofia política, do jornalismo, da cultura, do que da ação. Católico militante até ao fim, em relação à fé, como em relação a tudo o resto, combinou heterodoxia com ortodoxia. Foi o arguente principal quando defendi a minha tese de doutoramento e apreciou a minha capacidade de respostas às críticas, mas irritou-se com uma «gaffe» social que cometi sob pressão. Já depois da defesa da tese «puxou-me as orelhas» e, apresentando-se como um exemplo, autodefiniu-se como um «animal de cortesias».

Era um provocador e não tinha inibições em criticar em público a mediocridade e as ideias feitas. Em alguns meios o seu feitio valeu-lhe uma «lenda negra». O convívio que tive com ele nos últimos anos (e que agora lamento não ter sido mais frequente) levou-me a perceber o seu lado generoso e atencioso, em contraste com intelectuais que combinam as artes do «politicamente correto» e a de esfaquear os outros pelas costas. Não por acaso, a par de inimizades, cultivou um leque de amizades que foram desde o realizador João César Monteiro ao atual cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente.

Deixou uma marca difícil de avaliar no cinema português, tendo presidido entre 1983 e 1990 ao Instituto Português de Cinema e no teatro – entre outras contribuições para a atividade teatral, presidiu ao Conselho de Administração do Teatro Nacional de S. Carlos em 1992 e 1993. Mais palpável é o seu contributo para a renovação da sociologia política e da História contemporânea, apesar de se mostrar um cético em relação à capacidade explicativa da História.

Entre os seus livros de História, destaco A Separação do Estado e da Igreja. Concórdia e Conflito entre a Primeira República e o Catolicismo, publicado quando se comemorava o centenário da lei da Separação. Num período em que muito se publicou sobre a I República atribuindo à História pouco mais do que papel de reproduzir a propaganda da época sob uma capa científica, Luís Salgado de Matos publicou este livro em que nem a Igreja católica aparecia como a vítima da perversidade republicana, nem os republicanos eram mostrados como os agentes heroicos da emancipação do obscurantismo religioso. A questão religiosa durante a I República é analisada na perspetiva das negociações, afrontamentos e compromissos entre o Estado e a Igreja, as organizações católicas, republicanas e aquelas que procuravam superar esta dicotomia.

Luís Salgado de Matos teve também uma intervenção na blogosfera através dos seus blogues Estado e Igreja (ver aqui) e O Economista Português (ver aqui). Publicou ainda um romance, Doutora Helena, sobre o qual hei-de escrever um texto. O seu desaparecimento deixou-nos mais pobres, enquanto cá esteve deu-nos muito em que pensar.

14
Fev21

Espírito benevolente

João Miguel Almeida

Segui a pista da banda sonora de Peaky Blinders no youtube e percorri outros trabalhos de Nick Cave. Ghosteen é o mais recente. O título é composto pela palavra «»Ghost, mais no sentido de «espírito» do que de fantasma, e uma palavra de origem irlandesa que significa «pequeno», «benevolente».

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