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Estado de Contingência

Estado de Contingência

20
Jul24

Estado de contingência?

João Miguel Almeida

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A bala que zumbiu na orelha de Donald Trump parece um excelente pretexto para voltar a escrever num blogue com o nome de Estado de Contingência. Nos milhares de linhas que já se escreveram sobre a tentativa de assassinato, muitos afirmaram que, por pouco, Donald Trump podia ter sido eliminado da corrida presidencial, alterando o rumo da História. Outros especulam se o Donald Trump «renascido» poderá «meter o discurso de ódio na gaveta» e, como já declarou, adotar, daqui em diante, um discurso mais unificador. Mas será que uma simples bala podia, ou pode, mudar o rumo da História?

Se Donald Trump tivesse morrido e J.D. Vance o substituísse e conseguisse ser eleito Presidente dos Estados Unidos, a sua política seria assim tão diferente da política de Donald Trump se fosse eleito? Não creio. O Donald Trump «renascido» será assim tão diferente do antigo? Parece que conseguiu ser um pouco diferente durante umas horas e meia-dúzia de discursos, mas não tardou a retomar o antigo discurso de ódio.

O caldo de violência social e política que alimentou e insuflou a figura de Trump não surgiu ontem e não desaparecerá amanhã. Foram precisas muitas gerações e ressentimentos acumulados ao longo de décadas para que Donald Trump pudesse emergir como candidato credível a Presidente da América. A bala que lhe raspou na orelha foi mais uma a juntar a muitas outras que, ao longo de dois séculos, feriram e até mataram vários políticos norte-americanos. A fotografia icónica do Donald Trump, de punho erguido e cara ensanguentada, recortado contra o céu azul, parecendo segurar a bandeira norte-americana, não teria o impacto que teve se, durante mais de um século, Hollywood e tantos canais de televisão não tivessem produzido milhões de imagens de bandeiras a esvoaçar em céus azuis, políticos fotografados ou filmados em contrapicado e heróis de cara ensanguentada e punho erguido.

O atentado a Donald Trump foi mais um de vários acontecimentos imprevistos que, desde o final do ano passado pareceram sublinhar a contingência do nosso mundo.

Há menos de um ano António Costa era primeiro-ministro de um governo com maioria absoluta. De súbito, demite-se, na sequência de uma investigação da Procuradoria Geral da República, o Presidente da República convoca novas eleições e parece que a AD se ganhar será por pouco e não resistirá à vaga crescente do Chega. Não era difícil imaginar uma viragem política distópica com o Chega no poder. Hoje esse cenário parece ridículo. A AD vai governando, o Chega está em queda, os portugueses, nas sondagens, consideram o governo «razoável» e o cenário de um governo de curtíssima duração, de uma instabilidade e crise política que pudesse ser aproveitada pela extrema-direita, vai-se desvanecendo no horizonte. Não é de um momento para o outro que desaparece uma memória de governos democráticos ao centro, ou no «centrão», de um regime democrático.

Em França, durante os dias, o cenário de distopia política pareceu bastante mais plausível: na sequência de uma «aposta política» de Macron em novas eleições legislativas, a extrema-direita francesa estaria prestes a tomar o poder. Afinal um século de memória antifascista mostrou pesar mais na decisão dos eleitores franceses do que uma jogada maquiavélica de um Presidente da República.

Estado de contingência? Fui buscar o nome deste blogue a um dos muitos «estados» decretados no contexto da covid-19. Nessa altura estava farto de escrever um diário da covid-19 e o mote da «contingência» permitia-me escrever sobre muitos outros assuntos. O mundo está a mudar e mostra constantemente «novas qualidades». Achamos que a imprevisibilidade é um sinal de que o acaso, ou a liberdade humana, desempenham um papel de relevo no curso da História. Mas pode ser uma ilusão. A História não tem leis, como a Física, que permitam prever acontecimentos. No entanto, há memórias enraizadas, hábitos, «mentalidades», condicionamentos económicos e culturais que não mudam de um momento para o outro. O papel da nossa liberdade ou do acaso joga-se numa margem mais estreita do que gostamos de pensar. E é tomando consciência destas margens que podemos alarga-las um pouco mais ou até, numa rara situação de crise, mudar alguns poderes.

 

 

 

03
Mar24

A pequena vitória de Alexei Navalny

João Miguel Almeida

A realização do funeral de Alexei Navalny na sexta-feira passada, nos arrabaldes de Moscovo, foi uma pequena vitória para os lutadores pela liberdade e pelos direitos humanos e uma pequena derrota para Putin.

Havia receios de que o funeral descambasse numa manifestação anti-Putin e isso não aconteceu. O regime conseguiu «normalizar o acontecimento», mas essa «normalização» não pôde deixar de ser uma derrota.

Porque a «normalidade» para Putin era a aprovação incontestada do seu poder e a «normalidade» de ontem foi milhares de russos participaram no funeral de um opositor a Putin, recusando o medo e arriscando-se a ser presos por levantarem a voz contra o regime. Alguns foram presos, alguns apenas por depositarem flores no túmulo de Navalny. Muitos outros correram o mesmo risco.

Porque a «normalidade» para Putin e para a Igreja Ortodoxa que o apoia é que as igrejas não prestem serviços fúnebres a opositores e abençoem a guerra da Ucrânia. E no funeral religioso de Navalny houve gritos contra a guerra.

Uma pequena vitória para a liberdade e uma pequena derrota da prepotência, um rosto para o que pode ser o heroísmo no século XXI, num tempo de políticos cínicos e de vítimas anónimas enterradas em valas comuns. Uma verdadeira vitória só poderá ser alcançada percorrendo o caminho aberto por pequenos passos como estes.

Por contraste, as vitórias e derrotas nos campos de uma guerra que se arrasta há dois anos parecem cada vez mais passos num círculo vicioso de morte e destruição.

 

18
Nov23

«O que é odioso para ti...»

João Miguel Almeida

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O ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro de 2023 não é justificável, nem justifica o ataque do governo israelita à faixa de Gaza. Algumas frases atravessam o turbilhão do «som e fúria» como se pudessem dar-lhe algum sentido: «não há inocentes neste conflito», «Israel tem direito à autodefesa e tem de destruir o Hamas».

Quem afirmou que «não há inocentes neste conflito» lembrou que o Hamas foi eleito pelos palestinianos. Mas os milhares de crianças palestinianas que já morreram neste conflito não elegeram ninguém. Se não há inocentes neste conflito o que é que são os recém-nascidos palestinianos, alguns prematuros, já mortos ou em risco de vida? É aceitável a ideia de que uma eleição estabelece uma identificação para sempre entre um povo e um partido eleito? Não, não é. Segundo uma sondagem citada por Noa Sattah, a Diretora Executiva da Associação de Direitos Civis em Israel, nas vésperas da guerra 25 por cento dos palestinianos não apoiava o Hamas (Ver aqui).

Eu não tenho de escolher entre o Hamas que praticou um massacre e o um governo israelita que, segundo fortes indícios, está a cometer crimes de guerra. Há quem lembre o Holocausto a propósito do massacre de 7 de outubro e invoque o direito à autodefesa ou retaliação de Israel. Pois então convém lembrar que Israel, após o Holocausto, procurou e prendeu nazis, como Eichmann, levando-os à justiça. Israel distinguiu entre nazis e alemães, agora uns dirigentes israelitas confundem militantes do Hamas e palestinianos (como o ministro que sugeriu lançar uma bomba atómica em Gaza) outros distinguem-nos em teoria, mas não nos bombardeamentos.

O senhor Netanyahu, que antes da guerra estava a ser muitíssimo contestado pelos cidadãos israelitas agora quer amarrar o Israel ao seu destino e remeter os seus críticos para o campo do antissemitismo. Eu encontro-me entre os que têm um grande respeito pelo legado ético e espiritual do judaísmo. Considero que alguns profetas e rabis judeus foram pioneiros da consciência ética e que essa consciência se universalizou através das outras religiões abrahâmicas – o cristianismo e o islamismo – e influenciou o humanismo secular e os códigos éticos de outras religiões. Estou a pensar, claro, na «regra de ouro» do rabi Hillel (c. 60 a.c. – 9 d.c): «O que é odioso para ti, não o faças ao teu próximo: esta é toda a Lei; o resto é mero comentário» (Shab. 31a). Ora bem. Mais palavras para quê?

 

12
Nov23

E agora, Portugal?

João Miguel Almeida

E agora, Portugal? Para já, temos uma crise política e a incógnita sobre quem será o candidato do PS às próximas eleições de 10 de março e quem será o primeiro-ministro a emergir dessas eleições; temos um primeiro-ministro demissionário que vai governar durante quatro meses no contexto de guerra às portas da União Europeia e guerra do outro lado do mediterrâneo; ameaça de recessão económica; risco de descrédito da política e da Justiça.

Mas esta crise política poderá ser apenas o primeiro embate do iceberg no casco de navio, desencadeando um processo de afundamento tão previsível quanto inevitável.

A recessão económica poderá alargar o rombo no casco. O investimento estrangeiro, que este ano já atingiu 69 por cento do PIB não poderá ressentir-se da imagem de Portugal como um país preso numa teia de burocracia, que só pode ser rompida através da corrupção ou de agilizações de processos por pessoas do poder que levantam suspeitas de corrupção?

Por fim, uma possível crise da justiça. A exigência de transparência não pode ser menor para a justiça do que para a política. O ministério público não pode, inconsequentemente, emitir um comunicado que lança uma suspeita sobre governantes, incluindo o primeiro-ministro, derrubando um governo de maioria absoluta e depois ir passando para a comunicação social, off the record, fragmentos de escutas de frases ambíguas, que adensam suspeitas porque não excluem a hipótese de corrupção, mas que nada provam.

Um país não naufraga como um navio. Mas pode afundar-se, ingloriamente, num pântano de «apagada e vil tristeza».

 

05
Nov23

Os Assassinos da Lua das Flores

João Miguel Almeida

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O último filme de Martin Scorsese, Os Assassinos da Lua das Flores, tem dividido a crítica. Para uns é mais um grande filme de um mestre do cinema, um filme histórico situado na década de 1920 sobre uma série de crimes organizados com o fim de apropriação do dinheiro de índios Osage, inesperadamente enriquecidos pela descoberta de petróleo na sua reserva. Para outros é um filme muito aquém das obras-primas de Scorsese, como Taxi Driver ou Touro Enraivecido.

Eu gostei do filme, considero que é um filme importante do autor, embora não dos melhores. Alguns dos argumentos contra o filme não me convencem: é «demasiado longo», dá «demasiado espaço aos improvisos de Robert De Niro e Leonardo DiCaprio», etc. Procurando racionalizar uma intuição – este filme não é tão bom como outros, não creio que a razão esteja na duração do filme, numa montagem mais fluída em contraponto à montagem trepidante de outros filmes de Scorsese, nem no foco colocado na magnífica dupla De Niro/DiCaprio. O problema, em meu entender, está mesmo em algumas fragilidades dramáticas: Robert De Niro é um grande ator no papel de um grande vilão. Mas não tem contraponto dramático. DiCaprio é um bom ator, mas a sua personagem é fraca, vai agindo ao sabor da influência do tio vilão ou do seu amor pela mulher Osage com quem casa. É a personagem central, à volta da qual gira todo o enredo. No entanto, não tema força anímica, não vive na dilaceração existencial que engrandeceram outras personagens de Scorsese: Travis Bickle ou Jack LaMotta. O realizador e os espectadores querem ter empatia pelos índios Osage. Pontualmente, essa empatia é alcançada. Mas nenhuma personagem índia tem uma dimensão dramática equivalente à do vilão/Robert DeNiro ou mesmo à personagem oscilante de DiCaprio.

É se sublinhar que o realizador, além de se aventurar num novo território: a história de um conflito entre os índios Osage e o capitalismo dos «loucos anos 1920», conflito no qual intervém um FBI nos seus primórdios, aproveita para revisitar muitos dos temas da sua obra, além de juntar dois dos seus atores preferidos. É como se Scorsese, que começou por filmar as «tribos urbanas» na década de 1970 e foi realizando filmes sobre a violência, o amor e os conflitos familiares, o crime organizado e o catolicismo, procedesse a uma espécie de «arqueologia» de muitos dos seus temas. Mesmo um tema dramático relativamente insólito como a sucessão de mortes e o luto associado a essas mortes em The Departed tem ecos em «Os Assassinos da Lua das Flores».

Scorsese ficou conhecido pelas suas narrativas cinematográficas viscerais, por vezes apresentadas em contraponto a um certo cinema europeu mais conceptual, que admira mas não segue. Também em relação a este ponto há alguma novidade, nos últimos minutos do filme, com uma metanarrativa em que o epílogo da história é filmado sob a forma de uma encenação radiofónica perante uma audiência ao vivo, sendo o próprio Scorsese a ler o relato da morte da principal personagem feminina índia. Efeito de «distanciamento» por um mestre do cinema como ilusão? Teatro filmado? Sim, e bem feito, com uma leveza e eficácia.

Aos oitenta anos, Scorsese pode ter pensado em realizar um «filme-testamento». Esperemos que o futuro o desminta e ainda nos dê alguns grandes filmes.

 

 

21
Out23

Os Últimos do Estado Novo

João Miguel Almeida

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Nas vésperas dos cinquenta anos do 25 de abril, José Pedro Castanheira publicou Os Últimos do Estado Novo, um livro que reúne narrativas sobre figuras emblemáticas do ciclo político e social encerrado com a revolução dos cravos. Dos onze capítulos, nove são dedicadas a personalidades do antigo regime, a começar pelo último diretor do campo do Tarrafal e a terminar no último plenário dos sindicatos corporativos. Dois são dedicados a opositores à ditadura: os últimos presos políticos e o último deportado da ditadura (Mário Soares).

O livro está organizado por ordem cronológica, do mais recente para o mais antigo: começa a 1 de maio de 1974, dia em que são libertados os 51 prisioneiros do Tarrafal, e e termina a 6 de abril de 1942, data do último plenário dos sindicatos corporativos. Esta ideia de um fim prolongado, que se estica para além de todas as expectativas, calha bem num livro sobre o Estado Novo, regime que, após a II Grande Guerra parece ter adotado como lema a frase atribuída a D. Sebastião em Alcácer Quibir: «Morrer devagar.»

José Pedro Castanheira marcou, como profissional, o jornalismo português. Tem aproveitado os anos de reforma para publicar livros a um ritmo impressionante. Neste caso, reúne num volume reportagens que foram publicadas ao longo de 30 anos, muitas delas tomando como ponto de partida entrevistas aos protagonistas. A escrita tem a clareza, precisão e fluidez próprias da escrita jornalística, mas a oportunidade de rever, contextualizar, organizar o material de modo a dar uma perspetiva ampla do passado, seguindo o fio condutor da ideia dos «últimos» de que regime que «passou à História», dão-lhe o fôlego da História, uma História que não está sujeita a constrangimentos académicos, mas utiliza o conhecimento académico.

Uma impressão que ressalta deste conjunto de narrativas sobre papéis históricos desempenhados num regime que «passou à História» é a de que todos se encontravam enredados numa engrenagem social, política e policial. Paradoxo compreensível: os que eram presos políticos, com a distância que o tempo permite, são testemunhas de liberdade; os que estavam livres e gozando da liberdade potenciada pelo poder, apresentam-se como vítimas das circunstâncias. O próprio Salazar, sem dúvida, o principal arquiteto do Estado Novo e um dos homens que mais marcou a História do Portugal contemporâneo, aparece como um ator forçado a representar um estranho papel numa peça de teatro absurda engendrada pelos mais próximos. É um texto sobre os últimos dias de Salazar, após o acidente vascular cerebral, em que julga continuar a exercer o poder num país em que já não manda e o seu lugar de figura paternal e autoritária foi ocupado pela figura hamletiana de Marcelo Caetano.

 

11
Ago23

Milan Kundera

João Miguel Almeida

Este é o primeiro verão após a morte de Milan Kundera (1929-2023), romancista e ensaísta, mestre do romance-ensaio ou do ensaio ficcional. O seu nome surgiu na ribalta das letras quando a Europa pós Guerra Mundial, a Europa inventada pela Guerra Fria, estava a entrar em crise – pelo lado o Bloco de Leste, mas também a ocidente, a braços com o maio de 68 e os «anos de chumbo» da década de 1970. As suas ficções refletiam o «psicodrama» do que chamou uma «Europa sequestrada» sobre a qual refletiu sem entrar em devaneios psicologizantes sobre a identidades nacionais, mas pensando as conexões entre geografia, política e cultura.

O ano em que Milan Kundera desapareceu a Europa está outra vez em crise, novas sociedades e novas relações internacionais estão a ser formadas e delas temos uma ideia ainda muito vaga. A persistência de diferentes ritmos no interior da União Europeia, de diferentes modos de entender a democracia, os direitos humanos e a relação com a Rússia, mais a ocidente ou a leste, mostram que a ideia de uma «Europa sequestrada» era talvez demasiado simplista, que a herança do império austro-húngaro não é facilmente reativada e que o legado do «socialismo real» é mais pesado e complexo do que parecia.

Kundera nunca quis ser apenas um cronista social e político, mas pensar o ser humano, em todas as suas dimensões, no tempo que lhe foi dado viver, no seu país de origem, a Checoslováquia, e no seu país de acolhimento, a França, e até explorando a memória histórica e literária de tempos passados. A Insustentável Leveza do Ser foi o seu romance mais icónico. Concebia o romance como uma ferramenta para pensar e imaginar a humanidade, além das ideias-feitas, dos preconceitos, do kitsch. Um programa a contra-corrente do que parece ser a marca do nosso tempo. Num dos seus pequenos romances, A Lentidão, analisa a relação entre a lentidão e a felicidade. Um escritor livre é aquele que é tanto capaz de captar o espírito do seu tempo como de inventar o seu próprio tempo e, pelo menos, de nos dar um outro olhar sobre o nosso mundo.

10
Ago23

As polémicas da JMJ 2023

João Miguel Almeida

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As Jornadas Mundiais da Juventude em Portugal estiveram, desde o início da organização, envolvidas em várias polémicas, misturando diversos aspetos que penso que ganham em ser separados: a receção dos representantes do Estado português ao Papa; o apoio logístico do governo e das autarquias à JMJ; as despesas do Estado português com a JMJ. Em nome do Estado laico houve, à esquerda, quem criticasse o envolvimento do Estado português com a JMJ; em nome de um «catolicismo de cruzada» houve quem, na extrema-direita e no interior da Igreja católica, não gostasse nada da JMJ 2023. Vou focar-me na primeira polémica, pois nem creio que seja possível uma discussão racional acerca da segunda.

O Papa Francisco, como todos os Papas desde que nos lembramos é, simultaneamente, um líder religioso e um chefe de um Estado – o Vaticano. Deve ser recebido pelos representantes do Estado português como qualquer chefe de Estado estrangeiro. O grau de entusiamo e de envolvimento emocional dos responsáveis políticos e dos portugueses, nestas receções costuma variar consoante o chefe de Estado estrangeiro em causa e o Estado que representa. Foi assim com Lula da Silva – recebido com entusiasmo, apesar das reservas dos brasileiros em Portugal anti-Lula. Foi assim com a receção a Samora Machel na década de 1980 – recebido, em geral, calorosamente, apesar da irritação dos portugueses traumatizados com o processo de descolonização. O Papa Francisco foi recebido calorosamente por um povo e uma classe política que, na sua maioria, mesmo que não seja católica praticante, mantém uma ligação emocional ao catolicismo. Há obviamente, quem não goste e até deteste – não há aqui nada de estranho ou até de especificamente religioso.

Mesmo que o Estado português não gastasse o que gastou com a JMJ, esta não podia realizar-se sem algum apoio logístico do Estado – na proteção civil, na garantia da segurança, etc. Há quem coloque o foco crítico da JMJ nas despesas do Estado mas, implicitamente, considere que qualquer colaboração do Estado português com uma iniciativa religiosa é uma violação da laicidade. Não vejo que seja assim. O Estado português não tem de renunciar à laicidade ou converter-se ao catolicismo para apoiar, de um ponto de vista logístico, que acarreta sempre alguma despesa, à JMJ. Tem de ponderar se esse apoio se justifica por «razões de Estado»: se à despesa corresponde um justificável retorno económico; se a mensagem do Papa Francisco é compatível ou está em contradição com os valores de um Estado de Direito democrático; se as JMJ reforçam ou enfraquecem a imagem internacional de Portugal. Estas «razões de Estado» são, obviamente, discutíveis e estão sujeitas a um escrutínio político que se manifesta nas eleições.

Por fim, além das questões de princípio acerca da relação entre representantes do Estado português e da Igreja católica, há questões concretas sobre se os gastos do Estado com a JMJ, nesta conjuntura, são adequados ou excessivos. É neste ponto que considero a polémica mais justificável. Mas, ao contrário, da tendência geral, é como cristão que preferia ver o Estado a gastar menos na JMJ e mais na resposta a problemas sociais e económicos. Como cidadão e contribuinte considero que o dinheiro gasto pelo Estado na JMJ foi mais bem empregue do que o dinheiro gasto na construção do estádio do Algarve e em todas as despesas de manutenção desde 2003.

Mas as questões dos gastos e dos retornos deviam ser instrumentais e secundárias face às questões sobre o sentido que queremos dar a um mundo que, por nossa vontade ou contra ela, não para de mudar.

 

 

 

08
Ago23

A fé como libertação do medo

João Miguel Almeida

«Não tenhais medo» foi um dos motes evangélico que o Papa Francisco lançou na JMJ. Na amostra que fui tendo de comentários jornalísticos sobre a performance do Papa deparei com a observação de que o Papa Francisco falava com «pouca densidade teológica» e tinha preocupações mais pastorais. Foi mais um exemplo de arrogante ignorância jornalística. Há quem só reconheça densidade em quem fale de modo a não ser compreendido. A reflexão do Papa Francisco sobre a fé e o medo vem de longe. Neste vídeo, ainda como cardeal de Buenos Aires, Bergoglio discute com o que parecem ser dois judeus as relações entre fé no Deus judaico-cristão e medo.

Não faltam quer detratores quer apologistas do cristianismo que associem a fé ao medo. Kierkegaard, um filósofo cristão, escreveu Temor e Tremor, livrinho em que analisa a disponibilidade de Abraão para sacrificar o seu filho Isaac a mando de Deus, como se o temor a Deus e até o «terror de Deus» fosse uma espécie de «virtude cardeal» da fé. Biblistas como João Carreira das Neves têm desmontado o significado do episódio de Isaac no Antigo Testamento. O sacrifício humano era habitual nos povos pagãos entre os quais viviam os hebreus. O episódio de Abraão e Isaac começa por ser narrado como se o Deus de Israel fosse um «deus pagão» até que, no desfecho, o Deus de Israel mostra o seu verdadeiro rosto ao enviar o anjo que impede Abraão de sacrificar o filho.

A crucificação e ressurreição de Cristo podem ser interpretadas como uma continuação e desenvolvimento da mensagem bíblica do episódio de Abraão e Isaac. Cristo não é crucificado por vontade de Deus, mas devido aos erros, à cegueira, à loucura humana. Daí as palavras que Lucas coloca na boca de Cristo: «Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem» (Lucas 23:34). Cristo é crucificado por medo da sua pregação, para aplicar a ira de um fantasioso Deus punitivo. A vontade de Deus é expressa não na crucificação, mas na ressurreição de Cristo, que é a destruição da imagem de um Deus aterrorizador. Para alguns teólogos, como Hans Küng, a identificação entre Cristo e Deus pode ser representada por um processo de «adopção» de Cristo por Deus que se inicia com o batismo de Jesus por S. João Batista e culmina na ressurreição. O Deus de Jesus é portanto um Deus vivo, libertador do medo. Daí as palavras de Cristo após a ressurreição, repetidas pelo Papa Francisco: «Não tenhais medo».

07
Ago23

...e partiu apressadamente...

João Miguel Almeida

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A JMJ 2023 chegou ao fim, o Papa elogiou a organização das jornadas, que considera «a mais bem preparada» que já viu, e o Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, mostrou a sua satisfação pelo que «ficará» das jornadas para os lisboetas – o Parque Verde, e a imagem de uma imagem cosmopolita que fará de Lisboa a «capital do mundo». Há coberturas mediáticas sublinhando como tudo foi «bonito» e, sem dúvida, houve demonstração de muita competência na organização de eventos, promoção turística, e «coisas lindas», algumas sublimes, outras «kitch».

Mas o que mostrará se as JMJ valeram a pena e não foram mais uma manifestação (renovada) de folclore católico é se os jovens e todos «partiram apressadamente» das jornadas como Maria, no episódio do evangelho que lhes serviu de mote (Lc 1, 39), se levantou e «partiu apressadamente» para visitar a prima Isabel, que, aparentemente tinha passado o tempo da fertilidade, vivendo um casamento estéril com o marido, até descobrir que estava grávida. E grávida de um profeta que viria a ser o primeiro mestre de Jesus – João Baptista.

O que interessa saber é se o milhão de meio de pessoas que «curtiu» nas JMJ 2023 «partiu apressadamente» para romper com tantas esterilidades da vida eclesial, social, económica e política. É saber se os religiosos e leigos «partiram apressadamente» para virar a página de tantos abusos emocionais e sexuais na Igreja católica; é saber se os cidadãos peregrinos «partiram apressadamente» para enfrentar a pobreza, a descriminação, a exclusão; é saber se os trabalhadores peregrinos «partiram apressadamente» para inventar uma economia compatível com a justiça social; é saber se peregrinos da classe política e da sociedade civil «partiram apressadamente» para encontrar soluções de paz num mundo em guerra; é saber se todos «partiram apressadamente» para interromper a catástrofe ecológica em curso e fazer deste planeta uma boa casa para todos.

 

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