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A bala que zumbiu na orelha de Donald Trump parece um excelente pretexto para voltar a escrever num blogue com o nome de Estado de Contingência. Nos milhares de linhas que já se escreveram sobre a tentativa de assassinato, muitos afirmaram que, por pouco, Donald Trump podia ter sido eliminado da corrida presidencial, alterando o rumo da História. Outros especulam se o Donald Trump «renascido» poderá «meter o discurso de ódio na gaveta» e, como já declarou, adotar, daqui em diante, um discurso mais unificador. Mas será que uma simples bala podia, ou pode, mudar o rumo da História?
Se Donald Trump tivesse morrido e J.D. Vance o substituísse e conseguisse ser eleito Presidente dos Estados Unidos, a sua política seria assim tão diferente da política de Donald Trump se fosse eleito? Não creio. O Donald Trump «renascido» será assim tão diferente do antigo? Parece que conseguiu ser um pouco diferente durante umas horas e meia-dúzia de discursos, mas não tardou a retomar o antigo discurso de ódio.
O caldo de violência social e política que alimentou e insuflou a figura de Trump não surgiu ontem e não desaparecerá amanhã. Foram precisas muitas gerações e ressentimentos acumulados ao longo de décadas para que Donald Trump pudesse emergir como candidato credível a Presidente da América. A bala que lhe raspou na orelha foi mais uma a juntar a muitas outras que, ao longo de dois séculos, feriram e até mataram vários políticos norte-americanos. A fotografia icónica do Donald Trump, de punho erguido e cara ensanguentada, recortado contra o céu azul, parecendo segurar a bandeira norte-americana, não teria o impacto que teve se, durante mais de um século, Hollywood e tantos canais de televisão não tivessem produzido milhões de imagens de bandeiras a esvoaçar em céus azuis, políticos fotografados ou filmados em contrapicado e heróis de cara ensanguentada e punho erguido.
O atentado a Donald Trump foi mais um de vários acontecimentos imprevistos que, desde o final do ano passado pareceram sublinhar a contingência do nosso mundo.
Há menos de um ano António Costa era primeiro-ministro de um governo com maioria absoluta. De súbito, demite-se, na sequência de uma investigação da Procuradoria Geral da República, o Presidente da República convoca novas eleições e parece que a AD se ganhar será por pouco e não resistirá à vaga crescente do Chega. Não era difícil imaginar uma viragem política distópica com o Chega no poder. Hoje esse cenário parece ridículo. A AD vai governando, o Chega está em queda, os portugueses, nas sondagens, consideram o governo «razoável» e o cenário de um governo de curtíssima duração, de uma instabilidade e crise política que pudesse ser aproveitada pela extrema-direita, vai-se desvanecendo no horizonte. Não é de um momento para o outro que desaparece uma memória de governos democráticos ao centro, ou no «centrão», de um regime democrático.
Em França, durante os dias, o cenário de distopia política pareceu bastante mais plausível: na sequência de uma «aposta política» de Macron em novas eleições legislativas, a extrema-direita francesa estaria prestes a tomar o poder. Afinal um século de memória antifascista mostrou pesar mais na decisão dos eleitores franceses do que uma jogada maquiavélica de um Presidente da República.
Estado de contingência? Fui buscar o nome deste blogue a um dos muitos «estados» decretados no contexto da covid-19. Nessa altura estava farto de escrever um diário da covid-19 e o mote da «contingência» permitia-me escrever sobre muitos outros assuntos. O mundo está a mudar e mostra constantemente «novas qualidades». Achamos que a imprevisibilidade é um sinal de que o acaso, ou a liberdade humana, desempenham um papel de relevo no curso da História. Mas pode ser uma ilusão. A História não tem leis, como a Física, que permitam prever acontecimentos. No entanto, há memórias enraizadas, hábitos, «mentalidades», condicionamentos económicos e culturais que não mudam de um momento para o outro. O papel da nossa liberdade ou do acaso joga-se numa margem mais estreita do que gostamos de pensar. E é tomando consciência destas margens que podemos alarga-las um pouco mais ou até, numa rara situação de crise, mudar alguns poderes.